O início do ano costuma vir acompanhado de tentativas de grandes mudanças de vida que esperamos que nos façam sentir mais assentes, realizados ou no controlo. Talvez tenha decidido que está na altura de mudar de carreira, ir viver para o estrangeiro ou correr uma maratona.
Mas um sentido duradouro raramente nasce de uma reinvenção dramática. Ele é moldado pelo que fazemos com consistência. A ciência comportamental mostra-nos que o significado se constrói, ação reforçadora após ação reforçadora.
Por outras palavras, o significado não é algo que se encontra no fim de uma longa procura. É algo que se edifica, uma pequena ação valiosa a seguir à outra.
Então, como é que isto funciona, ao certo? E de que tipos de ações valiosas estamos a falar?
O significado do significado (sentido de vida)
Em psicologia, "significado" refere-se à perceção de que a vida é coerente, tem um propósito e está ligada ao que lhe é importante.
Quem sente mais significado tende a relatar maior bem-estar, menos stress e depressão, e mais resiliência quando a vida se torna difícil.
Quando o significado é baixo, as pessoas podem sentir-se sem âncora ou à deriva, mesmo que, objetivamente, nada esteja a correr "mal".
A vida costuma parecer significativa quando dedicamos tempo a coisas que importam e que trazem algum tipo de recompensa. Não tem de ser entusiasmo; pode ser uma sensação tranquila de "valeu a pena". Ajudar um amigo, aprender uma coisa pequena, avançar numa tarefa ou partilhar um momento de ligação podem deixar-nos mais assentes e mais vivos.
Estas experiências são exemplos de reforço positivo - comportamentos que nos devolvem algo, como energia, orgulho, satisfação ou ligação. Com o tempo, essas pequenas recompensas consolidam os padrões que fazem a vida parecer orientada por um propósito.
Em contraste, quando agimos sobretudo para evitar desconforto - desmarcar planos, afastar-nos quando estamos ansiosos ou sobrecarregados, adiar tarefas importantes - podemos até sentir alívio por instantes, mas perdemos acesso às experiências que tornam a vida mais rica.
Um padrão mais útil é dar passos pequenos, mesmo quando a motivação é baixa. Enviar a mensagem, começar o trabalho ou simplesmente sair de casa são inícios modestos que, muitas vezes, desencadeiam a satisfação ou a esperança que estávamos à espera de sentir.
Porque é que os impulsos pontuais não duram
A passadeira hedónica ajuda a perceber porque é que momentos únicos de bem-estar raramente criam significado duradouro. Os psicólogos usam esta expressão para descrever a nossa tendência para regressar rapidamente ao nível emocional habitual após acontecimentos positivos.
Adaptamo-nos depressa a prazeres e eventos agradáveis: comprar algo novo, cumprir um objetivo, fazer umas férias curtas. Um trabalhador em esgotamento pode sentir-se melhor depois de um fim de semana fora, mas esse efeito desvanece-se assim que a segunda-feira chega.
Momentos especiais continuam a ter valor. Criam memórias e marcam o ano. Porém, não transformam a nossa vida, a menos que venham acompanhados de pequenas mudanças consistentes nas rotinas do dia a dia, na forma como estabelecemos limites e nas maneiras como investimos nas nossas relações.
O significado precisa de fontes diversas
O bem-estar é mais estável quando é sustentado por várias fontes pequenas e contínuas de reforço. Se todo o seu sentido de propósito depender do trabalho, de uma relação, ou de uma única dedicação - como o desporto -, a tensão nessa área pode abalar o seu bem-estar.
Já quando o significado assenta em vários domínios - amizades, aprendizagem, criatividade, atividade física, contributo, família, natureza, espiritualidade - passa a ter mais pontos de estabilidade.
A parte encorajadora é que o significado não exige motivação perfeita nem grandes viragens de vida. Ele é esculpido por pequenos comportamentos que pode iniciar em qualquer altura.
Então, o que é que resulta mesmo?
Estes três passos, apoiados pela investigação, podem ajudar a trazer mais significado para a sua vida.
1. Olhar para trás antes de avançar
Antes de definir objetivos, olhe para o ano anterior e reflita. Pergunte a si próprio:
- de que é que me orgulho ou pelo que estou grato?
- o que aumentou a minha energia ou o meu sentido de propósito?
- o que o drenou?
- o que evitei apesar de ser importante?
Isto ajuda a identificar quais os comportamentos, relações e rotinas que o foram sustentando de forma discreta - e também onde o seu “portefólio” pode ter ficado demasiado estreito.
2. Escolher duas ou três áreas que lhe importam
Mudanças com significado raramente vêm de resoluções grandiosas. Uma via mais consistente é selecionar duas ou três áreas da vida que sejam importantes - melhorar a saúde, aprofundar uma relação, aprender algo novo, contribuir para a vida da comunidade ou fortalecer rotinas parentais - e, em cada uma, escolher uma ação pequena e realista. O objetivo não é refazer tudo do zero, mas alargar com suavidade as suas fontes de recompensa.
Agende apenas o primeiro passo: uma caminhada curta, ler uma página, enviar uma mensagem, escrever um parágrafo, praticar durante cinco minutos. No início, o maior feito é simplesmente começar, por pequeno que seja.
Seja gentil consigo. Doença, stress, cansaço e exigências concorrentes vão interferir com os seus planos. O que conta é regressar, com suavidade e repetição, aos comportamentos que traduzem quem quer ser.
3. Organizar o ambiente para que os comportamentos certos sejam fáceis
Use pistas para facilitar o arranque. Deixe a roupa para caminhar preparada na noite anterior, mantenha o diário em cima da almofada e coloque lembretes em locais onde os veja.
Reduza a fricção. Guarde os essenciais em sítios previsíveis, tire distrações da vista e mantenha um espaço funcional. A ideia é tornar o comportamento significativo fluido e sem frustrações.
Ancore novos hábitos em hábitos antigos:
- leia uma página antes do café da manhã
- faça alongamentos antes de verificar os e-mails
- escreva no diário durante três minutos antes de lavar os dentes.
Estas ligações transferem o peso da força de vontade para a rotina.
Trevor Mazzucchelli, Professor Associado de Psicologia Clínica, Universidade de Curtin
Este artigo foi republicado ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.
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