Um repelente de mosquitos pensado para tornar as noites quentes mais agradáveis pode estar a criar um problema invisível para as abelhas-mamangavas.
Um novo estudo indica que até uma exposição curta a um inseticida comum pode tornar muito mais difícil para elas reencontrar o ninho, e isso pode colocar silenciosamente toda a colónia em risco.
A investigação foi realizada por cientistas da Universidade de Turku e da Universidade de Oulu, na Finlândia. A equipa concentrou-se na praletrina, um inseticida à base de piretróides libertado por dispositivos Thermacell.
O que os investigadores descobriram é preocupante. A substância não pareceu matar as abelhas-mamangavas de forma imediata após uma exposição breve, mas aparentou interferir com algo igualmente importante: a capacidade de regressarem a casa.
Porque regressar ao ninho é vital para as abelhas-mamangavas
Para uma operária de abelha-mamangava, voltar ao ninho não é um pormenor menor. É, na verdade, a função principal.
Uma abelha que não regressa não traz alimento e, por isso, não consegue ajudar a alimentar as larvas, apoiar a colónia ou manter o ninho a funcionar.
Uma operária em falta pode não parecer algo dramático, mas, se isso acontecer repetidamente, o impacto pode acumular-se rapidamente.
“Para as abelhas-mamangavas, regressar ao ninho não é um pormenor sem importância; pelo contrário, é essencial para a sobrevivência de toda a colónia. Se as operárias não conseguirem encontrar o caminho de volta, o ninho não recebe alimento,” disse Olli Loukola, da Universidade de Turku.
A questão não é apenas a possibilidade de um químico afetar as abelhas de forma vaga. O problema é que ele pode perturbar uma das tarefas básicas de que depende todo o seu sistema social.
No verão, muita gente usa estes dispositivos simplesmente para tornar pátios, varandas e jardins mais confortáveis. Em particular, os dispositivos Thermacell tornaram-se populares porque são fáceis de usar e parecem relativamente discretos.
Do ponto de vista humano, podem parecer uma pequena comodidade. Do ponto de vista de uma abelha, o ar em redor pode estar a transportar algo muito menos inofensivo.
Como foi conduzido o estudo sobre a praletrina e as abelhas
Para testar o que a praletrina estava a fazer, os investigadores estudaram 167 abelhas-mamangavas-de-cauda-amarela, Bombus terrestris. O desenho do estudo foi simples, mas eficaz.
As abelhas foram expostas ao inseticida através de um dispositivo repelente de mosquitos para consumo durante um minuto, dez minutos ou vinte minutos.
Depois disso, foram libertadas a 1 quilómetro do respetivo ninho, e os investigadores acompanharam se conseguiam regressar ao longo dos três dias seguintes.
Isto é importante porque aborda um problema mais realista do que um teste laboratorial padrão de toxicidade. Uma abelha pode sobreviver à exposição e, ainda assim, estar em sério risco se a sua navegação for afetada depois.
Entre as abelhas do grupo de controlo, que não tinham sido expostas à praletrina, 37 por cento conseguiram voltar ao ninho. As abelhas expostas durante um minuto não apresentaram uma diferença significativa em relação a esse grupo.
Mas a exposição mais longa alterou claramente o quadro. Após dez minutos de exposição, apenas 17 por cento das abelhas regressaram, enquanto após vinte minutos o número desceu para apenas 5 por cento.
Este resultado sugere que, quando a exposição dura tempo suficiente, as abelhas ficam muito mais propensas a perder o rumo.
Perdidas, mas não mortas
Uma das partes mais interessantes do estudo é aquilo que não aconteceu.
Nas abelhas que conseguiram regressar, a viagem de volta não demorou visivelmente mais tempo. Isso sugere que o inseticida não estava simplesmente a deixá-las mais fracas, lentas ou fisicamente exaustas.
Os investigadores também realizaram testes laboratoriais e verificaram que a exposição não aumentou a mortalidade. Por outras palavras, as abelhas não estavam a morrer em maior número devido à exposição de curta duração usada no estudo.
À primeira vista, isso pode parecer tranquilizador. Mas, em alguns aspetos, torna o resultado ainda mais inquietante.
Um inseto morto é fácil de contar, mas um inseto desorientado é muito mais difícil de detetar. Se uma abelha continua viva, mas não encontra o ninho, a colónia perde na mesma uma operária.
“As colónias de abelhas-mamangavas dependem de operárias que recolhem alimento, por isso, se elas não conseguirem regressar ao ninho, a capacidade da colónia para obter nutrição deteriora-se,” disse Kimmo Kaakinen, da Universidade de Turku.
“Com o tempo, isso pode enfraquecer o ninho, reduzir o número de novas rainhas e, no pior dos cenários, levar à morte de toda a colónia.”
Risco mais amplo para os polinizadores
Na Finlândia, os dispositivos Thermacell são permitidos, mas a sua utilização fica limitada à área imediata em redor das casas, como quintais e pátios. Não se destinam a ser usados em espaços interiores nem em ambientes naturais, como florestas ou parques nacionais.
Mesmo assim, os investigadores dizem que os resultados levantam questões mais abrangentes sobre o quão seguros são, de facto, os inseticidas domésticos para os polinizadores.
“Os repelentes à base de praletrina são usados em muitos países sobretudo por conveniência. Em algumas situações, o seu uso pode ser justificado, por exemplo, na prevenção de doenças transmitidas por mosquitos,” disse Kaakinen.
Este não é um argumento simples de que os repelentes de mosquitos nunca devem ser usados. Em locais onde os mosquitos transmitem doenças, o equilíbrio pode ser muito diferente.
Mas quando estes produtos são utilizados sobretudo para tornar uma noite ao ar livre um pouco mais agradável, a troca começa a parecer menos trivial.
O que parece um conforto menor para as pessoas pode trazer um custo escondido para polinizadores que já enfrentam uma longa lista de pressões.
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