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A startup R3 Bio propõe substituir animais em testes de medicamentos por “sistemas sem cérebro”.

Homem de bata branca analisa modelo anatómico de órgãos em laboratório com monitor ao fundo.

A tecnologia R3 Bio liga órgãos cultivados em laboratório numa única plataforma e pode prever com maior precisão a resposta humana, mas abre novos dilemas científicos e éticos

A startup de biotecnologia R3 Bio apresentou um conceito para criar sistemas de órgãos destinados ao teste de medicamentos. Estes «sistemas sem cérebro» reproduzem funções de organismos vivos, mas não possuem consciência, o que permite contornar os problemas éticos associados ao uso de animais.

A empresa, apoiada por multimilionários, pretende escalar a tecnologia para produzir sistemas baseados em células humanas. Isso poderá representar uma mudança importante para a indústria farmacêutica, que gasta anualmente milhares de milhões de dólares em testes que muitas vezes falham por causa das diferenças entre animais e seres humanos.

A abordagem da R3 Bio assenta na engenharia genética e em décadas de investigação sobre organoides. Ao contrário das tecnologias de «órgão-em-chip», a startup está a desenvolver sistemas de órgãos interligados que funcionam como um todo - incluindo fígado, rins e componentes do sistema cardiovascular.

Segundo os cofundadores, o objetivo da empresa é substituir os animais por sistemas que antecipem melhor a reação humana. Isto torna-se ainda mais relevante num contexto de pressão crescente para reduzir o uso de animais em investigação. Por exemplo, na Califórnia já é proibido testar cosméticos em animais, e a FDA (Food and Drug Administration, Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) aboliu os testes obrigatórios em animais para vários medicamentos.

O financiamento vindo de investidores privados mostra a seriedade das intenções da empresa. Embora os valores exatos não tenham sido divulgados, o apoio numa fase inicial costuma indicar a existência de uma prova de conceito, provavelmente obtida em experiências.

A tecnologia da R3 Bio poderá conquistar uma fatia relevante do mercado de estudos pré-clínicos, avaliado em mais de $10 mil milhões por ano. Se estes sistemas conseguirem realmente diminuir a taxa de insucesso nas fases finais do desenvolvimento de medicamentos, as empresas farmacêuticas estarão dispostas a pagar por eles.

Ainda assim, o projeto enfrenta desafios técnicos e regulatórios significativos. Criar sistemas orgânicos viáveis exige resolver problemas complexos - incluindo a vascularização (o processo de formação de novos vasos sanguíneos nos tecidos ou órgãos, que assegura o fornecimento de nutrientes e oxigénio), a integração do sistema imunitário e a manutenção de um funcionamento estável durante semanas ou meses.

As questões éticas continuam também em aberto. Embora os sistemas sem cérebro eliminem o sofrimento animal, levantam novos debates sobre os limites da bioengenharia - em particular, sobre a forma como estas estruturas devem ser classificadas do ponto de vista biológico e jurídico.

Concorrentes como a Emulate e a Organovo já desenvolvem modelos de órgãos isolados, mas a abordagem da R3 Bio, centrada na criação de sistemas completos, pode revelar-se mais promissora. Se for bem-sucedida, poderá transformar a própria forma como os medicamentos são desenvolvidos.

Numa fase mais avançada, a tecnologia poderá ser aplicada não só na indústria farmacêutica, mas também na toxicologia e na medicina personalizada. No entanto, entre as experiências atuais e a adoção em larga escala ainda se interpõem anos de investigação.

A R3 Bio aposta que o futuro dos testes pré-clínicos não passará pelos animais, mas por sistemas biológicos criados em laboratório. Se a tecnologia corresponder às expectativas, poderá tornar-se um elemento importante na transformação da investigação médica.

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