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Não é por acaso

Pássaro preto no chão com neve, segurando uma minhoca perto de tigelas com comida e folhas secas.

Muitos donos de jardins estranham-nos nos invernos frios: chapins e pardais penduram-se em massa nos comedouros, e as sementes de girassol e os blocos de gordura desaparecem num instante. Entretanto, o melro-preto, com o seu bico amarelo, salta pelo chão aparentemente sem interesse. Quase parece ingratidão, mas na verdade trata-se de uma estratégia de sobrevivência muito bem afinada, profundamente enraizada na biologia desta ave.

Porque é que os melros muitas vezes ignoram os comedouros elevados

A ave de jardim que se mantém de propósito no chão

Quando o inverno aperta a sério e o solo fica gelado, muitos esperam que todas as aves aproveitem qualquer fonte de energia fácil. Gordura, grãos, bolas de sebo - soa a um presente para corpos a tremer de frio. Mesmo assim, junto às casas de alimentação surgem sobretudo chapins, tentilhões e pardais. O melro passa por baixo e quase nem olha para cima.

Isso parece um mistério quando se sabe quanta energia uma ave pequena gasta por dia só para manter a temperatura corporal. O truque está no modo de vida do melro: é um caçador de chão e mantém-se fiel ao seu sistema, mesmo quando a temperatura desce em picada.

Os melros não são acrobatas do ar, mas trabalhadores do chão – o corpo inteiro deles está preparado para procurar alimento na folhada e na terra fofa.

Nascidos para remexer, e não para escaladas ousadas

Em comparação com os chapins, ao melro falta quase tudo o que é preciso para acrobacias em comedouros. As patas são fortes, mas não foram concebidas para se prenderem em ramos finos; servem antes para remexer, saltitar e andar. Além disso, o corpo é relativamente pesado, o que torna o equilíbrio em suportes instáveis muito mais difícil.

A sua força está noutro lado: com visão apurada e movimentos habituais, afasta as folhas, vasculha a terra solta e procura o que estiver escondido lá em baixo. Este comportamento está tão entranhado que nem a fome nem o frio o conseguem simplesmente “desligar”. Para o melro, o buffet fica no chão - não no comedouro suspenso lá em cima.

O truque da folhada: como o microclima ajuda os melros a passar o inverno

Debaixo das folhas, o solo mantém-se “aberto” por mais tempo

Quem, no outono, retira toda a folhada com extremo zelo costuma fazê-lo pensando no relvado. Para os melros, porém, isso representa uma pequena perda. Uma camada espessa de folhas funciona como um cobertor natural: isola o solo, conserva o calor residual e abranda o congelamento.

Enquanto a superfície parece gelada, a terra alguns centímetros abaixo continua muitas vezes surpreendentemente macia. A decomposição lenta gera um pouco de calor, suficiente para fazer uma diferença vital. É precisamente nessa zona que os melros procuram alimento.

Minhocas e insetos em vez de misturas duras de sementes

Debaixo das folhas, na terra solta e na cobertura morta escondem-se minhocas, larvas, escaravelhos e outros pequenos seres rastejantes. A isto juntam-se restos de sementes, partes tenras de plantas e, por vezes, bagas esquecidas. Esta mistura fornece sobretudo uma coisa: proteína.

Para os melros, a proteína animal no inverno vale ouro – mantém-nos ativos e aquece mais do que qualquer mistura dura de sementes no comedouro.

Quando as bagas nos arbustos ficam tão duras como pedra por causa do gelo e perdem lentamente valor nutritivo, no fim sobra ao pássaro apenas o solo como fonte fiável. Quem permite no jardim montes de folhas, restos de vivazes e alguma “desarrumação” está, na prática, a montar uma despensa natural para os seus melros.

O “bico macio”: porque é que as sementes de girassol não resolvem

Ferramenta errada para cascas duras

Os melros pertencem ao grupo dos chamados “bicos macios”. Conseguem picar frutos, puxar minhocas da terra e ingerir alimento tenro, mas sementes duras são um problema. Ao contrário dos tentilhões, não têm um bico robusto e em forma de cone capaz de partir cascas.

Uma mistura de sementes de girassol listradas pode ser um banquete para os chapins - para o melro, é quase inútil. Mal consegue abrir a casca, gasta força sem necessidade e, no fim, pode obter energia insuficiente em troca. No limite, come demasiado pouco, apesar de a taça parecer cheia.

Bagas congeladas: bonita decoração, quase sem valor alimentar

No fim do outono, os melros frequentam com entusiasmo a hera, o sabugueiro ou arbustos ornamentais. Nessa altura, os frutos ainda estão macios e ricos em energia. Mais tarde, no pleno inverno, muitas bagas congelam e tornam-se pequenas esferas duras, difíceis de bicarem. Além disso, a cada ciclo de gelo e degelo perdem nutrientes.

É então que começa uma fase delicada para o melro: a reserva visível nos arbustos continua lá, mas praticamente já não serve para nada. Quem não encontrar agora comida no chão entra depressa num défice energético perigoso - sobretudo em noites límpidas e glaciais.

Como alimentar os melros no inverno de forma realmente útil

Sugestões de menu para a mesa de inverno ideal do melro

Quem quiser apoiar os melros de forma concreta deve pensar menos em grãos duros e mais em alimento macio e rico em energia. São adequados, por exemplo:

  • Maçãs e peras: de preferência frutos apodrecidos ou enrugados, cortados ao meio e colocados no chão com a face cortada voltada para cima.
  • Passas ou sultanas: demolhadas previamente em água morna para ficarem mais macias e digeríveis.
  • Flocos de aveia: misturados com um pouco de óleo de colza ou de girassol, para aumentar a energia e o teor de gordura.
  • Alimentação para insetívoros: misturas específicas ou larvas de tenébrios secas compradas em lojas de animais, ideais para reforço de proteína.

Alimentos duros, muito salgados ou temperados da cozinha não são adequados. O pão também sobrecarrega o estômago da ave e incha de forma desfavorável no interior. É melhor disponibilizar poucos alimentos apropriados e de forma dirigida do que dar tudo o que estiver “a sobrar”.

O local decide: segurança e conforto para o melro

O conteúdo do menu é importante, mas o lugar onde se coloca é pelo menos tão relevante. Os melros sentem-se mais à vontade na borda de arbustos densos ou sebes. Aí podem refugiar-se a qualquer momento e vigiar possíveis predadores a partir de cima.

O ideal é uma zona de alimentação diretamente sobre terra ou relva, a poucos decímetros de uma sebe - com visibilidade desimpedida em redor para detetar perigos.

Se a comida for colocada no meio de um terraço despido, força-se as aves a uma situação pouco natural e insegura. Melhor: pedaços de fruta distribuídos ligeiramente no chão, sem formar amontoado, em dois ou três pontos ao longo dos arbustos. Isso reduz as disputas, porque os melros defendem o seu território alimentar no inverno de forma surpreendentemente vigorosa.

Proteção contra gatos e outros: assim a zona de alimentação fica segura

Perigo vindo da vizinhança

Com comida no chão, o risco de gatos aumenta sempre. Uma ave distraída, com a cabeça metida num pedaço de maçã, vê pouco do que se aproxima de lado. Muitos gatos domésticos soltos são excelentes caçadores e aproveitam qualquer oportunidade.

Quem quiser ajudar os melros deve, por isso, manter uma zona de segurança em redor do local de alimentação. Ervas altas, vasos de plantas ou elementos decorativos atrás dos quais um gato possa saltar de repente não devem fazer parte dessa área.

Como planear uma zona de alimentação segura

Aspeto O que faz sentido O que deve evitar-se
Campo de visão 1–2 metros de solo livre em torno da comida Decoração densa, cantos de muros, pilhas de madeira mesmo ao lado
Refúgio Arbustos ou sebe nas imediações como local de fuga Área totalmente aberta sem possibilidade de retirada
Superfície Terra, relva, folhas ou cobertura morta Calçada lisa ou guardas de varanda a grande altura
Gatos da vizinhança Comedouro bem visível a partir das janelas, para permitir intervir Cantos escondidos do jardim que o próprio observador mal consegue vigiar

Como o próprio jardim se torna um salva-vidas

Folhas, arbustos, água: passos simples com grande efeito

Quem apenas deixar comida para os melros está a desperdiçar potencial. A ajuda torna-se ainda mais eficaz quando o próprio jardim serve de abrigo de inverno. Para isso, basta:

  • Deixar montes de folhas debaixo de árvores e sebes, em vez de deitar tudo fora.
  • Plantar arbustos com bagas, como hera, roseiras bravas, sabugueiro, piracanta ou espinheiro-branco.
  • Disponibilizar um recipiente baixo com água fresca, de preferência ligeiramente temperada, renovando-a com regularidade.
  • Não deixar cada canto “impecável” - as vivazes secas fornecem sementes e esconderijos.

Estas estruturas têm vários efeitos ao mesmo tempo: oferecem alimento, abrigo contra aves de rapina e gatos, e criam pequenas zonas mais quentes no jardim. Destas beneficiam não só os melros, mas também os pisco-de-peito-ruivo, os carriças e muitas espécies de insetos.

O que muitos subestimam: necessidade de energia e risco

Num dia gélido de inverno, um melro perde reservas energéticas decisivas em poucas horas. Se for perturbado, tiver de fugir com frequência ou só encontrar alimento inadequado, as perdas aumentam ainda mais. Bastam alguns dias desfavoráveis seguidos para determinar se um animal chega ou não ao fim do inverno.

Uma alimentação direcionada com comida adequada, um jardim rico em estrutura e alguma prudência nos trabalhos de jardinagem no inverno produzem, em conjunto, um efeito forte. Assim, não se ajuda apenas uma ave isolada, mas uma verdadeira comunidade de cantores que, na primavera, volta a encher o próprio jardim de música de fundo.

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