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Porque aumentam as chamadas de burla apesar de listas de bloqueio – e como se proteger

Pessoa sentada a rejeitar chamada de número desconhecido no telemóvel, com computador portátil e documentos na mesa.

As chamadas fraudulentas estão a aumentar rapidamente e tornam o ato de telefonar numa verdadeira prova de nervos.

Em muitos países, incluindo a Alemanha, multiplicam-se há alguns anos as chamadas publicitárias agressivas e as burlas telefónicas sem qualquer limite. Listas de bloqueio, filtros de spam, exigências legais: tudo isso já existe há muito. Ainda assim, todos os dias milhões de telefones tocam com falsas promoções, supostos problemas com encomendas ou alegadas chamadas de autoridades. O que está a correr mal - e por que razão as regras parecem ter tão pouco efeito?

Telefonemas fraudulentos e burlas telefónicas aumentam apesar das regras

Os números mais recentes vindos de França mostram bem a dimensão do problema: em apenas dois anos, os casos comunicados de fraude telefónica aumentaram ali em mais de 100 por cento. A tendência é igualmente visível noutros países europeus - e isto apesar de a regulamentação estar, em teoria, a tornar-se mais exigente.

Já não são apenas as pessoas idosas e mais ingénuas que são visadas. Os burlões atacam todos os grupos etários:

  • jovens adultos, que encomendam muito online e caem em mensagens sobre encomendas ou bancos;
  • pessoas em idade ativa, que recebem muitas chamadas durante o dia e não conseguem verificar todas;
  • pessoas mais velhas, que ainda depositam mais confiança, ao telefone, em vozes que soam “oficiais”.

Muitas pessoas já quase não se sentem à vontade para atender números desconhecidos. O que deveria ser um meio prático de comunicação transforma-se, assim, num fator permanente de stress - com consequências muito reais: chamadas importantes perdidas, insegurança constante e a sensação de ter de estar sempre em alerta.

Porque é que as medidas de proteção existentes quase não surtem efeito

Em teoria, existe todo um conjunto de ferramentas contra chamadas indesejadas: listas nacionais de bloqueio, nas quais os consumidores se podem inscrever, filtros das operadoras móveis, definições específicas nos telemóveis e aplicações para bloquear números suspeitos.

Na prática, o impacto continua limitado. Isto deve-se sobretudo a três fatores:

  • A tecnologia dos burlões é extremamente flexível: os números podem ser trocados ou falsificados em segundos.
  • As regras muitas vezes valem apenas a nível nacional: muitas normas só se aplicam a chamadas iniciadas no respetivo país.
  • Os controlos são difíceis de executar: mesmo quando existem proibições claras, provar cada infração dá bastante trabalho.

O ponto fraco mais importante: a maioria das chamadas fraudulentas já vem do estrangeiro - e, por isso, escapa às listas de bloqueio nacionais.

Até mesmo os filtros de spam mais sofisticados das operadoras de rede esbarram em limitações, porque as centrais de atendimento legítimas e os burlões usam métodos tecnicamente parecidos: computadores de marcação automática, grandes blocos de números, remetentes em mudança. Um filtro demasiado agressivo acabaria também por atingir chamadas de serviço verdadeiras - por exemplo, de bancos, serviços de entregas ou consultórios médicos.

Como operam as redes de centros de chamadas no estrangeiro

Muitas vagas de fraude são tratadas em centrais de chamadas organizadas de forma profissional, frequentemente fora da União Europeia, por exemplo no Norte de África, na Europa de Leste ou na Ásia. Nesses locais, os custos salariais são baixos, os controlos são fracos e o enquadramento jurídico é difícil de fazer cumprir pelas autoridades europeias.

Características típicas destas chamadas fraudulentas

  • Chamada feita em determinadas horas do dia, muitas vezes ao início da noite ou à hora de almoço.
  • O número apresentado parece “local” ou supostamente pertence a uma instituição conhecida.
  • Do outro lado está um funcionário real de uma central de chamadas ou, primeiro, uma gravação automática.
  • É exercida pressão: “última oportunidade”, “caso urgente de segurança”, “o seu cartão será bloqueado”.

Os objetivos são quase sempre os mesmos:

  • obter dados sensíveis, como números de conta, códigos de confirmação, documentos de identificação ou números de cliente;
  • vender serviços que não existem (por exemplo, supostas assinaturas de segurança informática);
  • fechar contratos caros, escondidos na letra miudinha;
  • instalar software de acesso remoto no computador da vítima.

Porque é que as operadoras móveis quase não conseguem intervir

Muitas pessoas perguntam: porque é que o meu operador não bloqueia simplesmente estas chamadas por completo? A resposta, sem rodeios, é esta: as operadoras móveis têm muito menos poder do que muita gente imagina.

Limites legais e técnicos

Em regra, as operadoras de rede só podem bloquear chamadas que violem claramente normas nacionais e que tenham origem no próprio país. No caso de ligações internacionais, a situação é diferente: entram em jogo acordos internacionais e padrões técnicos que dificultam bloqueios unilaterais.

Há ainda outro problema: um número de telefone já não diz, de forma fiável, de onde parte realmente uma chamada. Com a “falsificação da identificação de chamadas”, pode ser simulada uma numeração que parece um número normal de rede fixa ou móvel alemã - quando, na realidade, a chamada vem de outro continente.

Enquanto os burlões operarem a sua tecnologia a partir do estrangeiro, as regras nacionais encontram limites naturais - mesmo que os políticos aprovem leis mais duras.

Só quando a origem, o encaminhamento e a autenticidade de uma chamada puderem ser verificados com clareza é que existirá uma verdadeira capacidade de atuação. Soluções como o procedimento de autenticação de chamadas STIR/SHAKEN, já usado na América do Norte, têm sido discutidas na Europa, mas ainda estão longe de uma implementação generalizada.

Como reconhecer chamadas suspeitas

Os consumidores não se conseguem proteger a 100 por cento, mas conseguem reduzir bastante o risco. Há vários sinais de aviso que surgem repetidamente em muitas tentativas de burla:

  • A pessoa do outro lado da linha começa logo por pressionar (“já”, “urgente”, “última oportunidade”).
  • São pedidos dados de acesso, PINs, códigos de confirmação ou números completos do cartão.
  • A chamada supostamente vem de um banco, da polícia, da autoridade fiscal ou de uma empresa de energia - mas a partir de um número móvel comum.
  • A voz evita responder quando faz perguntas críticas ou quando diz que prefere devolver a chamada para a linha oficial.
  • Tenta-se levá-lo a instalar programas de acesso remoto ou aplicações duvidosas.

Um reflexo saudável ajuda imenso: em caso de dúvida, desligue, procure o verdadeiro número oficial da suposta empresa ou entidade pública e ligue você próprio para lá. As entidades sérias não têm qualquer problema com isso.

Medidas concretas de proteção para o dia a dia

Além da atenção individual, também ajudam passos técnicos e organizacionais. Uma estratégia possível poderia ser esta:

Medida Vantagem
Ativar listas de bloqueio nas operadoras de telefone Filtra automaticamente parte dos números conhecidos de spam e fraude.
Procurar primeiro na internet números desconhecidos Muitos números usados por burlões já foram sinalizados em fóruns e portais de aviso.
Evitar devolver chamadas perdidas de números desconhecidos Protege contra números de valor acrescentado e chamadas isco.
Usar aplicações de bloqueio de chamadas Recorre a grandes bases de dados para detetar vagas de fraude conhecidas.
Formar a família e os familiares mais velhos Reduz o risco de pessoas especialmente vulneráveis caírem em armadilhas.

Porque é necessária mais cooperação internacional

Enquanto as redes de centros de chamadas puderem atuar sem dificuldades além-fronteiras, as proibições nacionais continuarão a ser um conjunto fragmentado de regras. As autoridades de investigação criminal na Europa precisam de entidades parceiras capazes de seguir de forma consistente servidores, centrais de chamadas e fluxos de dinheiro em países terceiros. Só quando também aí houver consequências reais é que este modelo de negócio deixará de ser tão atraente.

As normas das telecomunicações e os procedimentos técnicos de autenticação de números terão de ser coordenados a nível internacional. Só assim será possível assinalar ou bloquear números falsificados de forma fiável, sem pôr em risco serviços legítimos. Para os consumidores, isto pode parecer abstrato, mas tem um impacto muito concreto na forma como a próxima chamada desconhecida será irritante ou perigosa.

Termos importantes e um olhar sobre o futuro

Muitos termos técnicos surgem repetidamente neste contexto. Dois deles têm um papel central:

  • Lista de bloqueio: um registo de números de telefone que já não podem ser contactados para fins publicitários. Só funciona bem quando as empresas sérias a respeitam - os criminosos simplesmente ignoram-na.
  • Falsificação da identificação de chamadas: técnica usada pelos burlões para fazer aparecer no visor da pessoa chamada um número falso. Assim, a chamada parece mais credível ou “local”.

Ao mesmo tempo que surgem novas leis, os criminosos vão criando constantemente novos truques: vozes geradas por inteligência artificial que soam a familiares reais, menus de linhas de apoio falsificados com grande verosimilhança ou bots automatizados que só respondem quando alguém atende. Quem afina os próprios reflexos e usa ajuda tecnológica, pelo menos, dificulta a tarefa aos burlões.

O problema provavelmente nunca desaparecerá por completo - é demasiado lucrativo o negócio do medo e da distração ao telefone. Mas quanto mais pessoas conhecerem os padrões típicos e se recusarem de forma consistente a fornecer dados sensíveis, mais difícil será para quem telefona transformar um simples toque em dinheiro.

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