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Em 2026, as televisões vão ultrapassar os limites do 4K com novas tecnologias.

Homem sentado a ver televisão com imagem dividida entre futebol e cidade futurista ao pôr do sol.

Depois de anos em que tudo parecia girar à volta do 8K e de resoluções cada vez mais altas, o setor das televisões está a mudar de prioridade. Em 2026, a aposta deixa de ser meter mais píxeis no painel e passa a ser extrair mais luz, cor e fluidez dos píxeis que já existem. Para quem vê em casa, essa mudança pode ter um impacto muito maior na qualidade real da imagem do que qualquer salto de 4K para 8K.

Na prática, o argumento já não é “quantos píxeis cabem no ecrã”, mas “o quão bem esses píxeis são aproveitados”. E isso faz toda a diferença no dia a dia: uma boa gestão de contraste, brilho, cor e movimento nota-se logo, ao contrário de uma resolução extra que, muitas vezes, mal se distingue a uma distância normal do sofá.

Porque é que o setor está a deixar o 8K para trás

Durante anos, os fabricantes venderam o 8K como a próxima grande revolução. Em casa, essa promessa nunca chegou a convencer por completo.

Em montras e stands, as demonstrações em 8K eram impressionantes. Mas no sofá, a uns metros de distância, a diferença face a uma boa TV 4K era muitas vezes discreta, mesmo em ecrãs grandes. O olho humano tem dificuldade em perceber tantos detalhes extra a distâncias normais de visualização.

Havia também o problema do conteúdo. Filmes e séries em 8K nativo são praticamente inexistentes. O que a maior parte das pessoas via era 4K ou até HD, ampliado pela televisão. Isso tornava a proposta mais difícil de justificar para quem olhava para um preço elevado e para o catálogo habitual da Netflix.

A indústria percebeu que o que os espectadores realmente notam não são mais píxeis, mas píxeis melhores.

Contraste, brilho de pico, precisão de cor e tratamento do movimento são muito mais fáceis de ver do que uma passagem de 4K para 8K. Cenas escuras com sombras empastadas, desporto com desfocagem ou realces deslavados em dias de sol estragam a imersão de imediato. É aqui que as TVs de 2026 querem dar o maior salto.

O HDR entra em destaque

O High Dynamic Range (HDR) não é novidade, mas a forma como está a ser trabalhado nos modelos de 2026 está a mudar bastante. Em vez de definições estáticas, a nova geração trata o HDR como um sistema flexível, ajustado cena a cena, que reage ao conteúdo e às condições da sala.

Dois formatos rivais marcam esta nova disputa: Dolby Vision 2 e HDR10+ Advanced. Ambos procuram tirar muito mais partido dos painéis 4K sem mexer na especificação da resolução.

A corrida já não é sobre quantos píxeis uma TV tem, mas sobre quão inteligentemente esses píxeis são controlados.

Dolby Vision 2: tone mapping e controlo de movimento mais inteligentes

O novo standard da Dolby segue uma lógica centrada nos criadores. O Dolby Vision 2 trabalha com aquilo que a TV consegue realmente fazer, em vez de impor uma gradação igual para todos.

A principal novidade é um sistema de tone mapping bidirecional. Em vez de a fonte enviar apenas um mapa de brilho máximo e esperar que o ecrã aguente, a TV devolve informação sobre as suas capacidades. Diz à fonte quão alto consegue ir em brilho, quão profundos são os pretos e com que detalhe trata a cor.

Isso permite otimizar cada cena de forma diferente num OLED de sala pequena ou num Mini LED de elevada luminosidade numa divisão com muita luz. O mesmo filme pode parecer afinado para ambos, em vez de ficar comprometido pelo mínimo denominador comum.

O Dolby Vision 2 também entra no terreno do movimento. Uma funcionalidade chamada “Authentic Motion” permite que os criadores determinem quanta suavização de movimento, se houver, pode ser aplicada quadro a quadro. O objetivo é eliminar o efeito “novela”, sem perder nitidez quando ela é mesmo necessária, como em panorâmicas rápidas.

Pela primeira vez, as definições de movimento podem ficar integradas nos metadados HDR, em vez de dependerem por completo dos algoritmos agressivos da TV.

As primeiras impressões práticas no CES 2026 apontaram para cores mais vivas, realces mais controlados e movimento mais próximo da intenção original dos realizadores.

HDR10+ Advanced: a resposta da Samsung baseada em IA

Do outro lado, o HDR10+ Advanced, liderado pela Samsung e parceiros, segue um caminho mais aberto e automatizado. O formato continua sem licença, o que agrada aos fabricantes que querem evitar custos associados à Dolby.

Aqui, a inteligência artificial assume o comando. A TV analisa o tipo de conteúdo a passar - drama, futebol, concerto ao vivo, videojogo - e ajusta o comportamento HDR de forma dinâmica. Brilho, local dimming e mapeamento de cor mudam em tempo real para manter detalhe visível sem lavar a imagem.

Há um novo modo “HDR10+ Bright” pensado para ecrãs muito luminosos, sobretudo modelos Mini LED topo de gama que atingem picos de 4000 a 5000 nits. Isso permite que brilhos especulares como sol, faíscas ou reflexos se mantenham controlados, em vez de rebentarem em branco agressivo.

O movimento é tratado por um sistema chamado “Intelligent FRC” (frame rate control). Em vez de interpolação de movimento em massa, recorre aos metadados do conteúdo para decidir quando faz sentido gerar frames extra. Assim, reduz artefactos e mantém a ação nítida apenas quando necessário.

A aposta da Samsung é numa TV que trata de tudo por si, com o mínimo de ajustes manuais e sem custos de licença.

O que isto significa para as gamas de TV de 2026

A passagem para estes formatos HDR atualizados tem implicações claras ao nível do hardware. Um painel 4K de entrada não vai passar a suportar tudo por magia só com uma atualização de software.

O Dolby Vision 2, na sua implementação completa, aponta para televisões de gama alta. Os aparelhos precisam de processadores potentes e de painéis capazes de profundidade de cor até 12 bits, o que equivale a mais de 68 mil milhões de tonalidades possíveis. Nenhuma TV de consumo vendida antes de 2026 chega a essa especificação total, por isso quem quiser o conjunto completo de funcionalidades terá de olhar para modelos novos.

O HDR10+ Advanced também exige retroiluminação sofisticada. O formato está otimizado para Mini LED e QLED de topo com milhares de zonas de local dimming, o que permite um controlo muito mais apertado das áreas claras e escuras no ecrã.

Várias marcas já mostraram as cartas:

  • A Philips planeia disponibilizar Dolby Vision 2 em vários modelos OLED de 2026.
  • A Hisense está alinhada com Dolby Vision 2 nos seus modelos de topo.
  • A Samsung está a apostar no HDR10+ Advanced e não mostra sinais de vir a adicionar suporte para Dolby Vision.

É provável que esta divisão se reflita também nos fornecedores de conteúdos. A Prime Video da Amazon já manifestou apoio ao HDR10+ Advanced. A Canal+ está a trabalhar com Dolby Vision 2. Gigantes do streaming como Netflix e Disney+ devem seguir quando houver mais conteúdos masterizados para os novos padrões, mas essa transição pode demorar meses ou até anos, e não semanas.

Deve atualizar a sua TV em 2026?

Quem já tem uma TV 4K recente não precisa de entrar em pânico. Os modelos lançados em 2024 e 2025, com suporte para o atual HDR10+ e Dolby Vision, continuam muito capazes. Para muitas casas, a passagem para os formatos de 2026 vai parecer mais evolutiva do que revolucionária, sobretudo sem uma grande biblioteca de conteúdo compatível.

Para a maioria das pessoas, uma boa TV 4K HDR comprada recentemente continuará relevante durante anos, mesmo com a chegada do Dolby Vision 2 e do HDR10+ Advanced.

Onde a coisa fica mais interessante é no segmento premium. Quem estiver a preparar um investimento sério numa nova TV topo de gama vai encontrar uma nova escolha pela frente. O suporte aos formatos HDR passa a pesar tanto como o tipo de painel ou o tamanho no momento da compra.

Na prática, o mercado está a caminhar para um modelo de dois ecossistemas. Algumas marcas e serviços vão inclinar-se para a abordagem mais orientada para criadores do Dolby Vision 2. Outros vão ficar do lado do HDR10+ Advanced e da sua filosofia aberta e automatizada. É possível que o serviço de streaming preferido de cada utilizador acabe por puxar para um dos lados.

Diferenças principais, de forma rápida

Funcionalidade Dolby Vision 2 HDR10+ Advanced
Modelo de negócio Formato proprietário, com licença Norma aberta, sem licença
Hardware alvo OLED / Mini LED de gama alta, com capacidade de 12 bits Mini LED / QLED de alto brilho com forte local dimming
Tone mapping Comunicação bidirecional TV–fonte para cenas ajustadas Ajustes guiados por IA com base no tipo de conteúdo
Tratamento do movimento “Authentic Motion” com suavização definida pelo criador “Intelligent FRC” que adiciona frames só quando os metadados o indicam
Posicionamento Foco na fidelidade artística e no controlo Foco na automação e na adoção alargada pelos fabricantes

O que HDR, nits e bits significam na prática

Para quem se perde facilmente na linguagem técnica, vale a pena esclarecer alguns termos. HDR, ou High Dynamic Range, significa simplesmente que a TV consegue mostrar realces mais brilhantes e sombras mais profundas na mesma imagem. Pense numa pôr do sol em que se vê ao mesmo tempo o céu iluminado e os detalhes do rosto de alguém em primeiro plano, em vez de uma das zonas ficar toda estourada para cinzento.

Os nits medem o brilho. Uma TV básica pode andar pelos 300 a 400 nits. Modelos Mini LED topo de gama, anunciados com cerca de 2000 a 3000 nits, conseguem manter os realces HDR visíveis mesmo numa sala muito luminosa. O perfil “Bright” do HDR10+ Advanced espera televisões com picos muito mais altos, na ordem dos 4000 a 5000 nits.

A profundidade de bits diz respeito ao número de tonalidades que cada cor pode representar. A maior parte das TVs atuais usa painéis de 10 bits, o que já permite mais de mil milhões de cores. A aposta do Dolby Vision 2 em 12 bits pretende reduzir o banding em gradientes suaves, como céus azuis ou transições subtis de iluminação.

Cenários reais para TVs de 2026

Imagine um jogo da Premier League ao domingo à tarde numa Mini LED de 2026. Com HDR10+ Advanced, a TV deteta desporto em direto, aumenta o brilho, ajusta o local dimming para manter as camisolas dos jogadores bem definidas sobre o relvado e afina o processamento de movimento para preservar a bola nítida sem transformar o estádio num vídeo com aspeto de novela.

Passe agora para um filme masterizado em Dolby Vision 2 durante a noite. A sala está escura, por isso a TV e a fonte comunicam para reduzir o pico de brilho, aprofundar os pretos e seguir as definições de movimento escolhidas pelo realizador. As cenas sombrias mantêm detalhe fino em vez de se desfazerem num cinzento turvo, e as panorâmicas ficam cinematográficas em vez de excessivamente suaves.

Para os jogadores, ambos os formatos podem ser ainda mais relevantes. Tempos de resposta rápidos, menor input lag e HDR que se adapta a masmorras escuras e explosões cegantes em tempo real podem mudar por completo a sensação de um jogo. À medida que consolas e PCs começarem a suportar estes formatos avançados, os monitores de gaming podem começar também a aproveitar truques inspirados nas TVs de 2026.

Riscos e compromissos para quem compra

O principal risco é a fragmentação. Uma casa com uma TV que só suporte Dolby Vision 2 pode não tirar partido de conteúdos HDR10+ Advanced masterizados sobretudo para a plataforma da Samsung, e vice-versa. O HDR10 continua a ser a base comum, mas a melhor imagem vai depender desta disputa de formatos.

Há também a questão habitual de quem compra cedo. As primeiras gerações costumam trazer um preço mais alto e podem não suportar todas as funções previstas logo no lançamento. As atualizações de firmware tendem a corrigir lacunas, mas quem procura melhor relação preço/desempenho talvez prefira esperar um ano, para ver os formatos a estabilizar e mais conteúdo a chegar.

No lado positivo, o afastamento da guerra das resoluções também pode beneficiar os modelos de gama média. Mesmo que nunca recebam o Dolby Vision 2 ou o HDR10+ Advanced completos, os avanços de processamento em tone mapping e movimento devem acabar por descer para gamas mais acessíveis, trazendo HDR mais limpo e imagens mais consistentes às TVs 4K mais baratas.

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