Viver com cães é tão comum que quase passa despercebido - mas essa convivência moldou-nos mais do que pensamos. Desde que os humanos se fixaram em comunidades, é provável que tenham dividido a casa (e a vida) com cães, ao ponto de ser difícil imaginar uma “sociedade humana” sem animais por perto.
Essa história partilhada é tão longa que já foi descrita como uma forma de coevolução.
E um novo estudo que eu e colegas em Cambridge publicámos mostra que os golden retrievers e os humanos parecem partilhar uma base genética para, pelo menos, alguns comportamentos.
Os cães apresentam muitas adaptações que podem ajudá-los a viver e a cooperar connosco. É até possível que humanos antigos tenham selecionado os antepassados dos cães por conseguirem comer uma dieta mais parecida com a humana do que a dos lobos.
Ao nível psicológico, existem várias adaptações que facilitam a comunicação entre as duas espécies - como a capacidade de seguir gestos humanos, por exemplo apontar, algo que ultrapassa o desempenho dos nossos parentes mais próximos, os chimpanzés.
Os cães também parecem ser particularmente competentes a responder de forma adequada às emoções humanas.
Mas não é uma via de sentido único. Os humanos parecem ter uma compreensão intuitiva da natureza das vocalizações dos cães.
Hoje, a nossa relação inclui também partilhar o ritmo acelerado que tantas vezes marca a vida moderna. Por isso, não surpreende que exista uma prevalência excecionalmente elevada de problemas ligados ao stress nos cães, sobretudo em países como os EUA.
Isto levou investigadores a perguntar até que ponto poderemos partilhar problemas de saúde mental. Recentemente, surgiram várias alegações sobre a possibilidade de existir nos cães uma síndrome semelhante ao autismo. Em março de 2025, foi identificado um marcador genético semelhante para alguns dos problemas sociais relacionados com o autismo.
O nosso estudo levou esta procura genética mais longe. Eu e a minha equipa analisámos o código genético e o comportamento de 1.300 golden retrievers, procurando genes associados às suas características comportamentais. Depois, foram identificados em humanos os genes “equivalentes”, herdados do mesmo ancestral evolutivo.
Também foram identificadas as associações desses genes com um conjunto de processos ligados à inteligência humana, à saúde mental e à emoção.
Sou especialista no estudo e na gestão das emoções de animais de companhia na University of Lincoln, e por isso trabalhei com a equipa para explorar a base psicobiológica destas características.
Identificámos 12 genes em que parecia existir uma ligação entre cães e humanos relacionada com um funcionamento psicológico semelhante.
Alguns destes estavam muito alinhados em termos das respostas emocionais que produziam - por exemplo, respostas associadas a ansiedade não social. Noutros casos, porém, a ligação era menos evidente.
Ainda assim, formulámos hipóteses que poderão explicar a associação. Ao fazê-lo, encontrámos razões lógicas que sustentam as semelhanças observadas nas associações genéticas entre humanos e golden retrievers.
Por exemplo, o gene canino ADD2 foi associado ao medo de estranhos, mas em humanos estava relacionado com depressão. Uma característica central da depressão nas pessoas é o afastamento social; por isso, suspeitamos que possa existir uma ligação genética comum, que nos cães (que tendem a ser muito sociáveis) se manifesta como ansiedade perante estranhos.
Outras associações potenciais estavam ligadas a condições humanas que envolvem processos cognitivos complexos, como a autorreflexão - algo que não se pensa ocorrer nos cães. No entanto, ao analisarmos mais profundamente o leque de associações em humanos, conseguimos identificar razões plausíveis mesmo para algumas destas ligações.
Por exemplo, a capacidade de treino nos cães tendia a estar associada a genes em humanos ligados não só à inteligência, mas também à sensibilidade em relação a estar errado.
Até onde sabemos, os cães não conseguem projetar-se a si próprios e às suas circunstâncias de forma abstrata como as pessoas, mas conseguem certamente variar na sensibilidade a experiências desagradáveis. Isto pode ser a base de uma raiz genética comum entre as duas espécies.
Os resultados oferecem uma base muito sólida para futuros estudos em psiquiatria comparativa e evolutiva.
Como disse Eleanor Raffan, veterinária e professora auxiliar de fisiologia que liderou a parte de Cambridge desta investigação: "The findings are really striking – they provide strong evidence that humans and golden retrievers have shared genetic roots for their behaviour. The genes we identified frequently influence emotional states and behaviour in both species."
Há, claro, diferenças na forma como humanos e cães experienciam as emoções. Grande parte da emoção humana está ligada a processos de pensamento complexos. Ainda assim, isso não diminui a importância de condições relacionadas que podem refletir problemas de saúde mental ou sofrimento.
Enoch Alex, o primeiro autor do relatório e doutorando no departamento de fisiologia, desenvolvimento e neurociência, resumiu assim: "These results show that genetics govern behaviour, making some dogs predisposed to finding the world stressful. If their life experiences compound this, they might act in ways we interpret as bad behaviour, when really they're distressed".
Embora por vezes seja tentador desvalorizar o trabalho académico sobre cães como algo um pouco frívolo, este novo trabalho deixa pistas sobre um papel importante para os cães na nossa sociedade partilhada: como modelos naturais de problemas de saúde mental.
Daniel Mills, Professor of Veterinary Behavioural Medicine, University of Lincoln
This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
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