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Segundo a psicologia, alguns medos de adultos têm origem silenciosa na infância.

Criança com ursinho e adulto sentados frente a frente num tapete, numa sala iluminada e acolhedora.

No metro, esta manhã, um homem adulto estremeceu com o guincho dos travões. Não foi um salto evidente - apenas aquele pequeno encolher de ombros, discreto, que ele esperava que ninguém reparasse. Um adolescente riu-se e ele correspondeu com um sorriso, como se fosse uma piada da qual também fazia parte. Duas paragens depois, uma mulher ficou paralisada junto às portas de correr, deixando passar três comboios em vez de entrar na carruagem apinhada. Fixou a multidão como se fosse uma parede. Ninguém comentou nada, mas o ar à volta dela parecia apertado. Londres, Nova Iorque, Paris: o quadro repete-se. Adultos vestidos para o trabalho, com portáteis e copos de café na mão, atravessam a cidade enquanto, por dentro, disparam alarmes silenciosos e invisíveis.

Alguns desses alarmes foram ligados há muito, muito tempo.

Quando os medos da infância nunca chegam bem a crescer

Segundo os psicólogos, muitos medos na idade adulta não surgem do nada. Instalam-se devagar, como ervas daninhas a romperem pelas fissuras de um passeio cimentado anos antes. A aflição numa reunião, o pavor de voar, o coração acelerado quando alguém levanta a voz - tudo isto costuma ligar-se a episódios que mal consegue recordar.

O que começa como uma estratégia de segurança na infância pode cristalizar, mais tarde, numa forma de ficar preso.
E, na maioria das vezes, damos-lhe o nome de “é apenas a minha personalidade”.

Veja-se o medo de confronto. No papel, pode parecer alguém “tranquilo” ou “sem dramas”. No dia a dia, traduz-se em engolir queixas no trabalho, dizer “não faz mal” quando, por dentro, está furioso, ou passar as 2 da manhã a repetir discussões na cabeça.

Os terapeutas encontram frequentemente a origem nas dinâmicas familiares iniciais. Uma criança que viu os pais explodirem por detalhes aprende depressa que discordar equivale a perigo. Assim, torna-se a pessoa calada, a que agrada a todos, a que resolve tudo. Duas décadas depois, basta o chefe erguer uma sobrancelha numa reunião para o estômago parecer cair a pique, mesmo que ninguém esteja a gritar.

Do ponto de vista psicológico, o cérebro está apenas a executar o que aprendeu. É na infância que o sistema nervoso desenha o seu primeiro mapa de “seguro” e “perigoso”. Se, em casa, a zanga significava portas batidas ou “gelo” durante dias, o seu sistema passa a registar a raiva como ameaça.

Esse mapa mantém-se, a menos que a vida, a terapia ou uma crise séria obriguem a uma actualização. O medo adulto parece irracional porque a situação presente não justifica uma reacção tão intensa. Mas, para o corpo, o passado continua a acontecer. É por isso que pode ser um adulto competente e racional e, ainda assim, em segundos, sentir-se como uma criança de oito anos assustada. A idade no seu passaporte nem sempre corresponde à idade do seu medo.

Como identificar, com cuidado, as primeiras raízes dos medos na idade adulta

Uma abordagem útil é deixar de perguntar “o que é que se passa comigo?” e passar a perguntar “quando é que senti isto pela primeira vez?”. Da próxima vez que o pânico habitual aparecer - antes de uma apresentação, num autocarro cheio, ao enviar uma mensagem arriscada - pare um instante. Repare onde é que isso se manifesta no corpo: peito, garganta, estômago, mãos.

Depois, faça uma pergunta surpreendentemente eficaz: “a quem é que isto me faz lembrar, ou quando é que já senti exactamente esta sensação?”. O objectivo não é puxar por uma recordação perfeita e cristalina. É apenas entreabrir uma porta para versões mais antigas de si, que enfrentaram um medo semelhante com muito menos recursos.

É aqui que muita gente emperra: espera um flashback dramático, uma cena cinematográfica da infância. Se nada surge assim, conclui “devo ser só fraco” e segue em frente. É pena, porque o rasto costuma ser feito de momentos aparentemente banais. Um professor a rir-se quando leu em voz alta. Um pai ou uma mãe a suspirar sempre que fazia uma pergunta. Ficar tempo demais à espera que o fossem buscar à escola.

Sejamos honestos: ninguém se dedica a isto todos os dias. A vida anda cheia, e os medos antigos são peritos em convencer-nos de que “não é nada de especial”. Ainda assim, uma curiosidade suave, repetida ao longo do tempo, vai alterando a narrativa. Em vez de “sou só ansioso”, passa a ser “ah, este é o medo antigo que aprendeu que eu estava mais seguro se me mantivesse pequeno”.

“Às vezes, a coisa mais corajosa não é ‘ultrapassar’, mas finalmente virar-se e olhar para aquilo que o seu medo tem tentado proteger durante todos estes anos.”

  • Esta semana, repare num medo que se repete (falar em público, intimidade, conduzir, ser julgado).
  • Sempre que ele aparecer, anote: onde está, quem está presente, o que receia que aconteça.
  • Mais tarde, em silêncio, pergunte: “em que momento da minha infância é que algo se parecia um pouco com isto?”
  • Não force memórias; deixe que os padrões se revelem ao longo de dias ou semanas.
  • Se as emoções ficarem demasiado intensas, pense em falar com um terapeuta ou com uma pessoa de confiança que o ajude a manter-se ancorado.

Viver com o medo enquanto reescreve o guião

Há um alívio estranho quando se percebe que os piores medos na idade adulta talvez não tenham, afinal, a ver com a vida actual. Pertencem a uma versão mais nova de si, que fez o melhor que conseguiu com o que tinha. Isso não apaga, por magia, o pânico nos aviões, a angústia nos jantares de família, ou o suor frio quando o seu parceiro diz “temos de falar”.

O que muda é a voz com que fala consigo próprio. Em vez de se chamar dramático, começa a tratar esse medo como trataria uma criança num dia difícil: sentando-se ao lado dela. Não é preciso expulsá-lo. Caminha com ele e, devagar, ensina-o a aceitar que são possíveis finais diferentes.

Os psicólogos falam de “reparentalização” - não no sentido da moda das redes sociais, mas como prática diária de dar a si mesmo aquilo que não recebeu o suficiente na altura: tranquilização, limites, escolha, tempo. Repara quando o coração dispara numa conversa normal e diz, por dentro: “eu sei que isto parece perigoso, mas agora estamos seguros”.

Com o tempo, o sistema nervoso reajusta-se. Os mesmos gatilhos surgem, mas o pico é menor e a recuperação é mais rápida. Pode continuar a detestar alturas, entrevistas de emprego, ou ser o centro das atenções. A diferença é que esses medos deixam de dirigir o espectáculo inteiro. Passam a ser apenas uma voz à mesa - não a pessoa que segura o microfone.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A infância desenha o mapa do medo As primeiras experiências rotulam emoções, lugares e reacções como “seguro” ou “perigoso” Ajuda a ver o medo como algo aprendido, não como um defeito pessoal
Rastrear os primeiros momentos Perguntar “quando é que senti isto pela primeira vez?” liga o medo adulto a memórias mais antigas Dá um caminho prático para explorar as origens sem se perder
Reescrever as reacções Auto-fala gentil e novas experiências ensinam ao corpo sinais de segurança actualizados Mostra que o medo pode abrandar com o tempo, mesmo que nunca desapareça por completo

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1 Uma infância pequena e “normal” pode, ainda assim, gerar medos grandes mais tarde?
  • Pergunta 2 Como sei se o meu medo é psicológico ou se é algo médico?
  • Pergunta 3 É tarde demais para mudar medos que existem há décadas?
  • Pergunta 4 Tenho de me lembrar de tudo da infância para a terapia funcionar?
  • Pergunta 5 Qual é um passo simples que posso dar esta semana para começar a desembaraçar um medo antigo?

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