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Verme gigantes encontrados debaixo do fundo do mar deixam cientistas surpreendidos.

Astronauta em submarino explora fundo oceânico com robô a investigar anémonas luminosas perto de chaminé submarina.

Durante anos, a atenção dos investigadores esteve presa às criaturas invulgares que se agrupam em torno das fontes hidrotermais. Agora, começaram a perceber que o verdadeiro enredo pode estar ainda mais abaixo, oculto sob a própria crosta oceânica.

Minhocas-tubo gigantes onde ninguém esperava encontrar animais

Cientistas marinhos descreveram uma descoberta inesperada: minhocas-tubo gigantes a viverem não apenas junto das fontes hidrotermais, mas também abaixo do fundo do mar, no interior da crosta oceânica. Até aqui, estes animais eram sobretudo associados às colunas fumegantes e ricas em minerais conhecidas como “fumadores negros”, ao longo das dorsais meso-oceânicas. O novo trabalho indica que também ocupam um mundo discreto e praticamente invisível sob os sedimentos.

“Em vez de uma camada estéril de rocha e fluidos quentes, o subfundo parece albergar uma faixa espessa de vida animal, incluindo minhocas de grande porte.”

As fontes hidrotermais surgem quando a água do mar se infiltra na crosta, aquece na proximidade do magma e regressa à superfície sob a forma de plumas quentes carregadas de químicos. À volta destas emissões, prosperam comunidades inteiras sem luz solar, sustentadas por reações químicas em vez de fotossíntese. Até há pouco, assumia-se que os animais maiores ficavam na zona exposta do fundo marinho, agarrados às chaminés e às fendas por onde saem os fluidos.

As observações mais recentes contrariam essa ideia. Os dados apontam agora para minhocas e outros organismos a ocuparem fraturas e cavidades sob a camada de sedimentos, a vários metros de profundidade, e com potencial para se distribuírem por áreas extensas.

Como é que as minhocas-tubo gigantes chegam ao subfundo?

A grande incógnita é perceber como animais tão grandes acabam por viver num local tão improvável. A explicação mais aceite começa nas fases mais pequenas do seu ciclo de vida.

Muitas minhocas de grande profundidade libertam larvas que ficam a derivar na coluna de água antes de se fixarem. Os investigadores consideram que parte dessas larvas poderá descer “à boleia” dos fluidos quentes que circulam nos sistemas hidrotermais. Esses fluidos atravessam fraturas estreitas na crosta, funcionando, na prática, como autoestradas subterrâneas.

“As larvas provavelmente descem com os fluidos das fontes, colonizando fendas e cavidades sob o fundo do mar e construindo um ecossistema oculto.”

Já no interior da crosta, as larvas conseguem fixar-se, crescer e formar agregados que podem permanecer totalmente fora do alcance das câmaras colocadas no fundo marinho. Isto aponta para uma ligação contínua entre três zonas que, durante muito tempo, foram estudadas como se fossem separadas:

  • o oceano aberto, onde as larvas derivam
  • o fundo do mar, onde se encontram as fontes e as chaminés
  • o subfundo, onde os fluidos circulam através de rocha quente

Em vez de habitats isolados, estas camadas parecem estar intimamente conectadas pelo fluxo de água, pela química e pelos ciclos de vida dos animais.

Uma “camada de biomassa” escondida sob os oceanos

Os investigadores já falam numa verdadeira “camada de biomassa” sob os oceanos: uma zona viva comprimida nas fendas e poros da crosta. Durante anos, os estudos da biosfera profunda concentraram-se quase apenas em microrganismos, como bactérias e arqueias. A possibilidade de também existirem animais grandes e complexos nesse espaço muda a escala de vida que a ciência tem de contabilizar.

Embora as medições ainda sejam incompletas, a quantidade de matéria orgânica armazenada lá em baixo poderá ser relevante. Poderá rivalizar com a vida visível no fundo do mar ou, pelo menos, acrescentar-lhe uma fração importante.

“Esta camada de vida recentemente reconhecida altera as estimativas de quanto carbono, energia e biodiversidade o oceano profundo realmente contém.”

Uma biomassa oculta deste tipo influencia a forma como os nutrientes circulam entre o interior da crosta terrestre e o oceano acima. Pode também afetar o armazenamento de carbono a longo prazo e a química da água do mar, com consequências para o clima global em escalas de tempo geológicas.

Porque é que os cientistas estão preocupados com planos de mineração

Esta descoberta surge num momento delicado. Vários consórcios industriais e países estão a preparar-se para explorar minerais em grande profundidade, sobretudo nódulos polimetálicos, depósitos de sulfuretos perto de fontes hidrotermais e crostas ricas em cobalto em montes submarinos. Estes recursos incluem metais usados em baterias, eletrónica e tecnologias de energias renováveis.

Muitas das áreas na mira coincidem com sistemas hidrotermais ativos ou fósseis. Até agora, grande parte das avaliações ambientais incidia sobretudo nos habitats visíveis do fundo do mar: corais, esponjas, peixes e a fauna mais evidente associada às fontes. Se existir também uma comunidade animal espessa dentro da crosta, a mineração poderá causar danos muito superiores ao previsto.

Atividade Impacto potencial na vida do subfundo
Perfuração e detonações Parte fraturas da rocha que acolhem minhocas e microrganismos
Plumas de sedimentos Obstrui aberturas das fontes, alterando os trajetos de circulação dos fluidos
Remoção de chaminés Modifica a pressão e o fluxo que transportam larvas para o subsolo
Ruído e vibração Perturba animais em fendas e cavidades

Os cientistas defendem medidas de proteção mais rigorosas e um avanço mais lento rumo à mineração comercial. Argumentam que a humanidade está prestes a interferir com uma parte significativa da biosfera da Terra antes sequer de compreender o seu funcionamento.

Ligações à procura de vida para lá da Terra

Este habitat invulgar tem implicações que vão muito além do nosso planeta. Várias luas geladas do Sistema Solar exterior, como Europa (de Júpiter) e Encelado (de Saturno), deverão ter oceanos globais sob camadas espessas de gelo. Os dados sugerem atividade vulcânica nos seus fundos oceânicos, criando condições com alguma semelhança às fontes hidrotermais da Terra.

“Se animais complexos conseguem prosperar sem luz solar dentro de rocha quente e fraturada na Terra, vida mais simples poderia, de forma plausível, existir em ambientes comparáveis em luas geladas.”

A missão Europa Clipper da NASA, lançada em direção a Júpiter, pretende estudar o gelo, o oceano e a possível atividade hidrotermal de Europa. Ninguém espera encontrar minhocas gigantes em Europa, mas a biosfera de grande profundidade na Terra oferece cenários reais para testar hipóteses. A forma como os químicos circulam nas fontes, alimentam microrganismos e talvez suportem comunidades mais complexas fornece um modelo do que poderá acontecer noutros mundos.

O que são exatamente fontes hidrotermais e minhocas-tubo?

Fontes hidrotermais em linguagem simples

As fontes hidrotermais formam-se quando água do mar fria desce por fissuras na crosta oceânica, aquece perto do magma e volta a subir. No percurso, dissolve metais e outros compostos da rocha. Quando esse fluido quente irrompe no fundo do mar frio, os minerais precipitam, criando chaminés e plumas que parecem fumo negro.

Estas fontes libertam substâncias como sulfureto de hidrogénio, metano e vários metais. Alguns microrganismos usam estes químicos como fonte de energia, tal como as plantas usam a luz solar. Convertem carbono inorgânico em matéria orgânica, alimentando minhocas, amêijoas, caranguejos e outros animais.

Quem são estas minhocas gigantes?

As minhocas gigantes emblemáticas das fontes incluem frequentemente espécies como Riftia pachyptila, no Pacífico oriental. Podem ultrapassar os dois metros de comprimento, apesar de não terem boca nem estômago. Em vez disso, alojam bactérias simbióticas num órgão especializado. Essas bactérias processam os químicos das fontes e fornecem nutrientes à minhoca.

A deteção de minhocas semelhantes - ou aparentadas - no interior da crosta sugere que este modo de vida, sustentado por simbiose química, se estende muito para além das chaminés visíveis. Também levanta dúvidas sobre até que ponto estes ecossistemas penetram na rocha e durante quanto tempo persistem se as fontes se desligarem ou migrarem.

O que isto implica para a investigação futura e para nós

Para os investigadores, estas minhocas do subfundo abrem várias frentes de trabalho. Serão necessárias melhores ferramentas de perfuração e sensores que permitam amostrar a vida sem a destruir. Também é preciso monitorização de longo prazo para acompanhar a deslocação dos animais à medida que as fontes mudam. Simulações laboratoriais de fendas em rocha quente e pressurizada, com fluidos em circulação, podem ajudar a testar como as larvas se comportam e onde acabam por se fixar.

Para decisores políticos e para o público, isto obriga a reavaliar quão “vazio” é, afinal, o oceano profundo. Qualquer debate sobre mineração em mar profundo, áreas protegidas ou retroações climáticas passa a ter de incluir a vida não só no fundo do mar, mas também por baixo dele. As minhocas gigantes escondidas em fraturas rochosas, fora de vista, lembram discretamente que os oceanos continuam a conter sistemas inteiros que mal começámos a compreender.

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