Saltar para o conteúdo

Emprego ou filho? Empresas dividem-se sobre mães que não querem voltar ao trabalho após a licença de maternidade.

Mulher com bebé ao colo a trabalhar num portátil numa cozinha iluminada pelo sol da tarde.

Lá fora, o monitor do bebé emite uma luz suave sobre a bancada da cozinha. O café, meio bebido, já arrefeceu. De um lado da mesa, um portátil da empresa. Do outro, um chocalho de plástico. E, algures entre os dois, está uma mulher que, antes, sabia exactamente quem era às 9:00.

Ela percorre publicações no LinkedIn sobre “regressos após maternidade” e “reintegração sem atritos”. Nenhuma fala do pânico às 3:00, quando se percebe que se espera que tudo continue como se nada tivesse mudado. Elas falam de “pipelines de talento”. Ela está a tentar perceber como é que toma banho antes do meio-dia.

Em escritórios e em chamadas no Zoom, um pouco por todo o mundo, gestores discutem o que fazer com mulheres como ela. Estarão pouco comprometidas? Ou simplesmente cansadas de fingir? Vai-se desenhando uma linha invisível.

Quando um bebé rebenta com o acordo antigo

Durante anos, o guião corporativo foi fácil de recitar: ausenta-te por alguns meses, regressa agradecida e volta a trabalhar como antes. Só que esse guião está a desfazer-se. Há cada vez mais mães a olhar para a data de regresso e a dizer, baixinho, “Não”. Não por preguiça nem por falta de ambição, mas porque o velho acordo deixa de fazer sentido depois de noites passadas a contar respirações em vez de e-mails.

Em muitas empresas, essa recusa cai como uma traição. Ouvem-se comentários sobre “ter de voltar a cobrir o trabalho dela”. Os Recursos Humanos enviam mensagens polidas a remeter para a política interna. A liderança insiste nas “necessidades do negócio”. Mas, por baixo disso, há uma mudança maior a acontecer. Já não é apenas a pergunta “filho ou carreira?”. Passa a ser: “Para que tipo de vida vale a pena regressar?”

No Reino Unido, cerca de um terço das mulheres não volta ao mesmo empregador depois da licença de maternidade. Nos EUA, um inquérito de 2023 da Great Place To Work concluiu que 43% das novas mães ponderaram sair do emprego no ano seguinte ao parto. Por trás destes números, existem cenas silenciosas: uma mãe a chorar no parque de estacionamento antes de entrar no escritório; outra a fixar uma folha de cálculo e a sentir apenas exaustão.

Um gestor de uma empresa tecnológica de média dimensão contou que três em cada quatro mulheres da equipa dele nunca regressaram após o primeiro bebé. À superfície, culpou as “atitudes da Geração Z”. Em privado, confessou que a licença parental mais longa tirada por qualquer homem na sua equipa de liderança tinha sido de dez dias. A diferença não está só na duração da ausência. Está, sobretudo, em quem tem permissão para voltar diferente.

Muitos locais de trabalho assentam numa premissa nunca dita: o “trabalhador ideal” não tem responsabilidades de cuidado. A maternidade destrói esse mito. Quando uma mulher decide não regressar, não está apenas a tomar uma decisão íntima; está a expor a rigidez de um sistema desenhado para a vida de outra pessoa. Torna-se político, mesmo que, no fundo, ela só queira amamentar sem ter de o encaixar como se fosse uma reunião.

As empresas que repetem “o trabalho é o trabalho - ou aceitas, ou sais” estão a perceber que muitas mulheres, em silêncio, escolhem “sair”. Isso não significa necessariamente abandonar o mundo laboral. Significa afastar-se de empregadores que exigem que se deixe uma parte de si à porta do escritório.

Como algumas mães estão a reescrever as regras do regresso ao trabalho pós-licença de maternidade

As mães que regressam de forma diferente raramente anunciam uma revolução. O que muda, muitas vezes, começa numa decisão pequena e prática: tratar a data de regresso ao trabalho como o início de uma negociação, e não como o fim inevitável de uma história. Antes de responderem aos Recursos Humanos, definem as condições mínimas para que regressar seja realmente viável - não apenas suportável.

A lista, por vezes, é surpreendentemente concreta: dois dias por semana em teletrabalho. Nada de reuniões recorrentes depois das 16h00. Um regresso faseado durante três meses, com horário reduzido. Um acordo claro sobre o âmbito da função para que dizer “não” a mais um projecto não se transforme numa penalização. Não se trata tanto de benefícios, mas de desenhar um trabalho que caiba numa vida humana.

Há mulheres que “testam o terreno” meses antes de terminar a licença. Marcam uma breve videochamada com o gestor - não para se justificarem, mas para explicarem o que as manteria motivadas. A forma como se diz conta. Calmo, directo, sem culpa. Como observou uma directora de RH, as mães que conseguem melhores condições raramente são as que pedem desculpa por existir.

Também há erros que se repetem, sobretudo porque quase ninguém avisou que as regras mudaram. Um deles é esperar demasiado para falar, na esperança de que a empresa adivinhe necessidades. Outro é tentar, em silêncio, “fazer tudo” até algo ceder - a saúde, a relação, a paciência - e acabar por sair de rompante.

Nesta fase, a culpa costuma ser a voz mais alta. Culpa perante o bebé. Culpa perante os colegas. Culpa por “deitar fora” uma carreira construída com esforço. Nos dias maus, qualquer opção parece um falhanço. Por isso, algumas mães montam um pequeno comité de apoio, sem rodeios: uma amiga capaz de dizer, em voz alta, “O teu valor não se mede por mensagens do Slack por ler.”

Num plano muito pragmático, especialistas sugerem frequentemente escrever dois cenários: um “regressar como está” e outro “regressar se aceitarem as minhas condições”. Comparar as duas hipóteses no papel torna a realidade mais nítida. Às vezes, a resposta honesta é: não existe versão deste emprego que não me esmague. Dói, mas esclarece.

“Percebi que não queria que a minha filha crescesse a achar que ‘trabalho’ era um sítio que apaga as tuas necessidades assim que te tornas mãe”, diz Laura, 34 anos, que saiu de uma sociedade de advogados após a sua primeira licença de maternidade. “Sair parecia falhar. Hoje, vejo que foi o primeiro limite adulto que alguma vez estabeleci.”

Há ainda movimentos pequenos e protectores que mudam por completo o clima emocional:

  • Fala de forma clara com o teu parceiro sobre dinheiro, tempo e ressentimentos antes da data de regresso.
  • Regista por escrito cada pedido de trabalho flexível e cada resposta.
  • Pergunta a outras mães na empresa o que acontece na prática - e não apenas o que a política diz.
  • Planeia um ritual semanal minúsculo que seja só teu, não do trabalho nem da parentalidade.
  • Lembra-te de que dizer “não” a uma função é, muitas vezes, dizer “sim” ao teu sistema nervoso.

No plano humano, todos já vivemos o momento em que a narrativa oficial deixa de coincidir com a realidade. As mães em licença de maternidade estão a viver esse choque em tempo real. E, sejamos francos por um segundo: muitas políticas “amigas da família” continuam a partir do princípio de que alguém, em casa, há-de apanhar os cacos.

Uma nova linha de fractura no escritório

Em muitas equipas, a clivagem real não é entre mães e não-mães. É entre quem ainda encaixa no modelo antigo de trabalho e quem, entretanto, passou a transbordar para lá das suas margens. É aí que a tensão se instala. O colega solteiro que fica até tarde vê a mãe a sair às 16h30 e pensa “tratamento especial”. A mãe vê a caixa de entrada a acumular-se durante a noite e pensa “exigências impossíveis”.

Os líderes que interpretam cada saída após a licença de maternidade como “falta de compromisso” individual estão a falhar o padrão. Se várias mulheres do mesmo departamento não regressam, isso é feedback do local de trabalho. Nem sempre se resume a custos de creche ou hormonas. Por vezes, é a sensação de que a identidade de mãe é tolerada, mas não verdadeiramente bem-vinda, dentro do edifício.

Algumas empresas estão a tentar outros caminhos. Criam programas de regresso (“returner programs”) com horário reduzido durante seis meses. Treinam gestores, de forma explícita, para conversarem com colaboradoras que podem não querer voltar. Dão aos pais uma licença a sério - e não uma semana simbólica - o que, sem discursos, lembra a todos que cuidar não é um tema exclusivo das mulheres. São pequenas fendas numa parede que esteve de pé durante décadas.

Para muitas mulheres, partilhar a sua decisão - ficar, sair, renegociar - continua a ser arriscado. A carreira pode estagnar. As redes podem encolher. Ainda assim, cada história contada às claras enfraquece a velha pergunta “filho ou carreira?”, como se fossem mundos incompatíveis. Quanto mais estas escolhas vierem para a luz do dia, mais difícil se torna para as organizações fingirem que nada mudou.

Da próxima vez que chegar um e-mail a pedir a uma nova mãe que confirme a data de regresso, a verdadeira pergunta por trás dele estará lá, não dita: este sítio onde trabalho está preparado para conhecer a pessoa que sou agora? Ou ainda está à espera da mulher que eu era antes de ter este filho nos braços?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O “não regresso” não é marginal Uma parte significativa de mães não volta ao mesmo empregador após a licença de maternidade Perceber que a hesitação ou a saída não é isolada nem “anormal”
O regresso é uma negociação É possível definir e discutir condições concretas (horários, teletrabalho, perímetro da função) Ganhar margem de manobra, em vez de ficar preso a um enquadramento rígido
A escolha também é política Recusar voltar “tal como era” expõe os limites de um modelo de trabalho antigo Enquadrar a decisão pessoal como parte de um movimento maior sobre trabalho e parentalidade

Perguntas frequentes:

  • Estou a “arruinar” a minha carreira se não regressar após a licença de maternidade? Hoje, as carreiras raramente são lineares. Muitas mulheres que se afastam acabam por reentrar mais tarde através de trabalho independente, carreiras de portefólio ou outros sectores - muitas vezes com limites mais claros e, surpreendentemente, maior satisfação.
  • Com quanta antecedência devo falar com o meu empregador sobre opções flexíveis? Iniciar a conversa 2–3 meses antes da data de regresso dá tempo para explorar alternativas, ajustar expectativas e evitar decisões apressadas movidas apenas pelo cansaço.
  • E se o meu gestor interpretar o meu pedido como falta de compromisso? Enquadra o tema em desempenho e sustentabilidade: que condições te permitem fazer o teu melhor trabalho a longo prazo, e não apenas picos curtos de “heroísmo” seguidos de esgotamento.
  • É normal não querer deixar o meu bebé de todo? Sim. As hormonas, a privação de sono e o choque emocional de nos tornarmos pais tornam a separação inicial muito intensa. Esses sentimentos tendem a evoluir ao longo de meses, não de semanas.
  • Como lidar com o julgamento de colegas ou da família? Decide de quem a opinião realmente conta, prepara uma ou duas frases firmes e simples sobre a tua escolha e repete-as. Quem vai viver as consequências desta decisão és tu - não eles.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário