Saltar para o conteúdo

Os cursos universitários tornaram-se uma ilusão de sucesso cara.

Jovem mulher de bata e chapéu de formatura confusa sobre documentos à secretária em casa.

Num dia de chuva, numa terça-feira, vi uma fila de estudantes a contornar a esquina de um edifício administrativo da universidade, cada um agarrado a pastas e a copos de café. Uns traziam sweatshirts com os logótipos da escola estampados; outros tinham aquele ar rígido de quem faz contas em silêncio: propinas, renda, empréstimos, o custo de mais um semestre. Uma rapariga à minha frente abriu a aplicação do banco, suspirou e apagou discretamente três artigos do carrinho de compras do supermercado na internet.

Toda a gente brincava com a ideia de “ser estudante sem um tostão”, mas o riso parecia frágil, como um meme esticado até ao limite. Os cartazes da universidade, atrás de nós, prometiam “Futuros sem limites” e “Líderes de amanhã”.

Ninguém falava das prestações mensais que esperavam do outro lado.

O preço por trás da beca e da licenciatura

Basta entrar em quase qualquer universidade para receber a mesma mensagem por todos os lados: este é o passe certo. A licenciatura é apresentada como o caminho limpo que leva da incerteza ao sucesso, como se a vida para lá dessas salas de aula fosse uma aposta imprudente.

Mas os números contam uma história diferente. As propinas sobem mais depressa do que os salários. O alojamento à volta das universidades transformou-se num mercado privado alimentado pelo desespero. As famílias vão puxando, em silêncio, pelas poupanças; os estudantes assinam contratos de empréstimo em formato digital que mal compreendem; e toda a gente chama a isso “um investimento”, porque a alternativa parece fracasso.

A ilusão resulta porque veste fato e fala a linguagem da oportunidade.

Há também um custo invisível: noites mal dormidas, ansiedade constante e a sensação de que cada escolha académica tem de justificar, em dinheiro, anos de sacrifício. O problema não é apenas financeiro; é também emocional. Quando a pressão para “fazer render” um curso ocupa todos os pensamentos, estudar deixa de parecer crescimento e começa a parecer sobrevivência.

Veja-se o Liam, de 27 anos, o primeiro da família a chegar ao ensino superior. Fez tudo “como deve ser” - noites em branco, trabalhos de grupo, estágios não remunerados que, apesar disso, exigiam resultados ao nível de um profissional. A licenciatura custou-lhe o equivalente a um pequeno apartamento.

Dois anos depois de se formar, está de regresso ao supermercado onde trabalhava depois do secundário. O emprego é honesto, os colegas são simpáticos, mas as notificações do empréstimo chegam-lhe à caixa de entrada como pequenas explosões. Cada mensagem lembra-lhe uma promessa que nunca se concretizou totalmente.

Ele não é caso isolado. Em muitos países, o subemprego de diplomados está a tornar-se discretamente a regra, e não a exceção.

Quando tantos diplomados acabam em empregos mal pagos e instáveis, a promessa do ensino superior começa a soar mais a campanha de marketing do que a contrato social. Há algo subtil que se inverteu. Antes, o diploma era prova de competência. Agora, muitas vezes, serve apenas para poder ser notado - um cartão de identificação caríssimo para o mercado de trabalho.

A distância entre o que as universidades vendem e o que o mercado de trabalho compra já se alargou até virar um desfiladeiro. De um lado: brochuras brilhantes, histórias de sucesso, estatísticas cuidadosamente seleccionadas. Do outro: recrutadores a exigir “dois anos de experiência” para funções que pagam pouco acima do salário mínimo.

A licenciatura continua a ter valor, mas já não garante a vida que tantos imaginaram.

Universidade e licenciatura: repensar o que o “sucesso” custa mesmo

Existe uma pergunta prática e silenciosa que raramente aparece nos folhetos universitários: “O que é que estou realmente a comprar aqui?” Não apenas conhecimento, mas também anos da sua vida, dinheiro e capacidade mental. Antes de assinar esse empréstimo, vale a pena inverter a lógica.

Comece por fazer um orçamento brutalmente honesto: propinas totais previstas, alojamento, alimentação, transportes e juros dos empréstimos. Depois compare esse valor com os salários de entrada na área que escolheu, não com os empregos de sonho, mas com os que realmente aparecem nos portais de emprego.

Há ainda outra conta que conta, mesmo quando ninguém a põe no papel: o impacto na sua saúde mental e no seu equilíbrio diário. Um curso que obriga a trabalhar em excesso, a adiar descanso ou a viver permanentemente em modo de urgência também tem um preço, ainda que esse preço não venha impresso no contrato.

Isto não é um ataque à ambição. É uma forma de decidir se quer financiar uma licenciatura, um estilo de vida ou uma narrativa que beneficia sobretudo a instituição.

Muitos estudantes caem na mesma armadilha: escolhem um curso porque soa “prestigioso”, e não porque encaixa nas suas capacidades reais, na sua personalidade ou na realidade do mercado. Ignoram as dúvidas porque toda a gente à sua volta repete o mesmo lema: “Um diploma compensa sempre”.

Todos conhecemos aquele momento em que acenamos em silêncio numa refeição de família enquanto alguém diz: “Estuda primeiro, depois tudo se resolve.” Interiorizamos essa voz e empurramos a ansiedade para longe. Depois chega a formatura, e o “depois” não se resolve sozinho.

Sejamos honestos: quase ninguém faz este trabalho todos os dias - analisar dados sobre empregos, falar com pessoas que já trabalham nessa área, comparar percursos. Ainda assim, essa tarefa pouco glamorosa pode poupar uma década de stress financeiro.

“A universidade não é automaticamente um logro”, disse-me uma orientadora profissional certa vez. “O verdadeiro logro é acreditar que só existe uma forma respeitável de construir uma vida.”

  • Questione o caminho por defeito
    Pergunte a si próprio quem beneficia mais com a sua inscrição: você, ou a contabilidade da instituição.
  • Explore alternativas
    Formação profissional, aprendizagens, certificações em linha e cursos de curta duração podem oferecer rotas mais rápidas e mais baratas para um trabalho sólido.
  • Teste antes de se comprometer
    Cursos curtos, dias de observação e funções a tempo parcial mostram muito mais do que um slogan como “Siga a sua paixão”.
  • Separe estatuto de resultado
    Um diploma com uma marca famosa fica bem nas redes sociais, mas a sua renda futura não será paga com gostos nem com nostalgia universitária.
  • Defina a sua própria métrica de sucesso
    Para uns, isso é salário. Para outros, liberdade de tempo, criatividade ou localização. A universidade é apenas uma das muitas ferramentas para lá chegar, não o destino em si.

O que acontece quando deixamos de venerar o diploma

Assim que deixa de tratar a licenciatura como um objecto sagrado, surge um alívio estranho e muito concreto. O mundo fica um pouco mais amplo. De repente, uma combinação de trabalho, auto-estudo, pequenas certificações e projectos paralelos já não soa a “desistir”. Soa a estratégia.

Para algumas pessoas, uma formação em regime parcial, combinada com emprego, também pode ser uma solução mais equilibrada, porque reduz a pressão financeira e permite ganhar experiência ao mesmo tempo. Essa via pede disciplina, mas encaixa muitas vezes melhor na vida real do que a ideia de que tudo tem de acontecer dentro do modelo tradicional.

Esta mudança não apaga, por magia, sistemas injustos nem propinas abusivas. Ainda assim, retira algum poder a instituições que se habituaram a falar como se fossem donas do futuro. Dá-lhe espaço para dizer não, ou pelo menos “não assim, e não a qualquer preço”.

A ilusão do sucesso só funciona quando toda a gente aceita olhar para os mesmos holofotes e ignorar os cabos suspensos por cima. Quando recua um passo, começa a ver a sua vida como algo maior do que uma folha emoldurada.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
1 Avaliar o custo real de uma licenciatura face ao rendimento provável Ajuda a evitar armadilhas de dívida a longo prazo e promessas ilusórias
2 Considerar vias alternativas: formação, aprendizagens, cursos curtos Abre caminhos mais baratos e mais rápidos para um emprego estável
3 Redefinir o sucesso para lá do estatuto e da marca da universidade Apoia decisões alinhadas com objectivos pessoais, e não com pressão social

Perguntas frequentes sobre universidade e empréstimos estudantis

  1. 1. A universidade é sempre um mau investimento hoje em dia?
    Não. Em algumas áreas - medicina, engenharia e certos empregos em tecnologia - a formação formal continua a ser muito importante. O problema é tratar a universidade como padrão obrigatório, e não como apenas uma opção entre várias.

  2. 2. Como posso perceber se a minha licenciatura compensa financeiramente?
    Compare o custo total - propinas, despesas de vida e empréstimos - com os salários de entrada realistas na sua área e estime quanto tempo demorará a pagar tudo. Se parecer um esforço de décadas, talvez valha a pena escolher outro percurso.

  3. 3. Que alternativas sérias existem a um curso tradicional?
    Escolas profissionais acreditadas, aprendizagens, ensino superior politécnico, certificações da área e programas de formação financiados por empregadores podem levar a trabalho qualificado e respeitado sem endividamento pesado.

  4. 4. E se já me formei e sinto que fui enganado?
    Esse arrependimento é muito mais comum do que as pessoas admitem. Ainda pode reaproveitar as suas competências, construir um portefólio, requalificar-se com formação barata em linha e mudar gradualmente para funções mais bem pagas ou mais alinhadas consigo.

  5. 5. Como lidar com a pressão da família para ir para a universidade?
    Mostre dados, não apenas opiniões. Apresente custos, perspectivas de emprego e alternativas. Deixe claro que não está a rejeitar a educação - está apenas a escolher um percurso que é mais inteligente, e não apenas mais tradicional.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário