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Pica, a síndrome pouco conhecida que leva algumas pessoas a comer vidro, terra, sabão ou pregos.

Mãos a mostrar frasco com especiarias, comprimidos, frutas e outros objetos sobre mesa clara, ambiente clínico.

Os quartos de estar, as salas de aula e as enfermarias hospitalares podem esconder, em silêncio, uma perturbação marcada por desejos estranhos e por hábitos perigosamente mal compreendidos.

A vontade de mastigar gelo, engolir terra ou trincar sabão pode soar como uma história excêntrica, mas, para muitas pessoas, condiciona a vida quotidiana, a saúde e o equilíbrio mental. Os médicos chamam-lhe pica e só agora começam a perceber quão comum e complexa ela é de facto.

Quando o cérebro deseja aquilo que o corpo nunca deveria comer

A pica descreve uma forte atração por substâncias que não são consideradas alimentos. As pessoas relatam sentir-se puxadas para:

  • terra, argila ou giz
  • cubos de gelo ou neve
  • papel, cartão ou lenços de papel
  • sabão, goma para engomar ou talco
  • objectos metálicos, pregos ou parafusos
  • fragmentos de vidro ou pedaços de cerâmica

As crianças, por vezes, levam objectos à boca como parte do desenvolvimento normal. A pica é diferente. Mantém-se ao longo do tempo, surge em crianças mais velhas, adolescentes ou adultos e continua mesmo quando a pessoa sabe que pode fazer mal. O desejo acumula-se como pressão. A tensão aumenta, os pensamentos giram em torno da substância pretendida e o alívio só chega depois de a mastigar, lamber ou engolir.

A pica não é um desafio nem uma moda. Para muitas pessoas, aproxima-se mais de uma dependência do que de uma curiosidade.

Alguns descrevem um sabor ou uma textura específicos que os prendem: o estalar da terra, a superfície lisa do vidro, o crepitar frio do gelo. Outros dizem que o próprio acto acalma a ansiedade, preenche um vazio emocional ou dá uma sensação de controlo em fases caóticas da vida.

O que é, ao certo, a pica?

Os psiquiatras classificam a pica como uma perturbação do comportamento alimentar. Para cumprir a definição médica, a pessoa tem de consumir repetidamente substâncias não alimentares durante pelo menos um mês, de um modo que não corresponda a qualquer prática cultural ou religiosa aceite. Mastigar noz de bétele em certas regiões da Ásia, por exemplo, tem raízes sociais e históricas próprias e não é rotulado como pica.

A pica manifesta-se em todas as idades. Crianças pequenas, adultos com empregos exigentes, idosos em lares e mulheres grávidas podem ser afectados. Muitas vezes, os serviços de saúde não identificam o problema porque os doentes sentem vergonha ou receiam ser vistos como “estranhos” ou “pais inseguros”. Muitos nunca falam do que fazem até surgir uma complicação séria.

Gravidez, pobreza e outros factores de risco

A investigação da última década destacou grupos em que a pica surge com maior frequência:

Grupo Gatilhos comuns
Mulheres grávidas défice de ferro, alívio das náuseas, crenças culturais, tensão
Crianças e adolescentes atraso no desenvolvimento, autismo, negligência, ansiedade
Adultos com traumatismo cerebral ou demência lesão nos circuitos de controlo dos impulsos, confusão, alterações sensoriais
Pessoas em pobreza severa insegurança alimentar, défices de micronutrientes, tensão crónica

Uma grande revisão publicada em revistas de obstetrícia estimou que quase três em cada dez mulheres grávidas em todo o mundo referem alguma forma de comportamento de pica. Muitas mencionam desejos por argila, terra, gelo ou amido para engomar. Em algumas comunidades, estes hábitos são tolerados em silêncio, sendo vistos como uma forma inofensiva de lidar com as náuseas ou o cansaço. As equipas médicas, por outro lado, preocupam-se tanto com os danos nutricionais como com o risco de infecção.

Outro grupo destaca-se: pessoas com perturbações neurológicas ou psiquiátricas. Há relatos de casos que associam a pica a acidente vascular cerebral, lesões no lobo frontal, perturbação do espetro do autismo, deficiência intelectual e depressão grave. Em alguns doentes, a imagiologia cerebral mostra lesões em regiões responsáveis pelo controlo dos impulsos, pela recompensa e pela tomada de decisão. Quando esses circuitos falham, torna-se muito mais difícil resistir a impulsos invulgares.

A pica encontra-se muitas vezes no cruzamento entre biologia, psicologia e pressão social, o que dificulta encaixá-la numa categoria simples.

Perigos escondidos por detrás de desejos estranhos

Nem todas as substâncias representam o mesmo perigo, mas nenhuma é completamente segura. Os médicos costumam agrupar as principais complicações em quatro categorias.

1. Lesão mecânica do tubo digestivo

Objectos duros ou cortantes, como vidro, pedras, peças metálicas ou grandes fragmentos de plástico, podem arranhar, obstruir ou perfurar o aparelho digestivo. Os doentes chegam às urgências com dor abdominal intensa, vómitos ou sangue nas fezes. Por vezes, as radiografias revelam punhados de objectos engolidos, compactados no intestino.

Mesmo materiais mais macios, como papel ou cabelo, podem aglomerar-se e formar massas densas chamadas bezoares. Estas massas podem bloquear a digestão e exigir cirurgia. Episódios repetidos aumentam o risco de cicatrizes, dor crónica e problemas intestinais duradouros.

2. Intoxicação química

Terra, lascas de tinta, pilhas ou objectos metálicos antigos podem conter chumbo, mercúrio ou outros metais pesados. Estas toxinas acumulam-se no organismo ao longo do tempo. As crianças expostas desta forma podem apresentar dificuldades de aprendizagem, alterações do comportamento e problemas de crescimento. Nos adultos, podem surgir lesões nervosas, dano renal ou hipertensão.

Produtos de limpeza domésticos, sabão e produtos de beleza usados na pica também podem irritar a boca, o esófago e o estômago. Detergentes fortes queimam os tecidos e alteram o equilíbrio químico do corpo, levando por vezes a complicações potencialmente fatais.

3. Infecções e parasitas

Comer terra, argila ou fezes expõe o corpo a bactérias, vermes e outros parasitas. Um estudo realizado na Etiópia, por exemplo, associou a geofagia - o hábito de comer terra - durante a gravidez a uma maior taxa de infecções parasitárias e anemia. Muitas mulheres incluídas nesse estudo tinham parasitas detectados tanto no organismo como na terra que ingeriam.

Estas infecções podem causar diarreia crónica, perda de peso, fadiga e, durante a gravidez, complicações tanto para a mãe como para o bebé. Em regiões com acesso limitado a água potável ou cuidados de saúde, o impacto torna-se ainda mais grave.

4. Dano nutricional

A pica surge muitas vezes em conjunto com défice de ferro ou de zinco. A situação pode transformar-se num ciclo vicioso. As deficiências podem desencadear desejos por substâncias não alimentares, sobretudo gelo ou argila. Ao mesmo tempo, essas substâncias interferem com a absorção de nutrientes, agravando ainda mais o défice.

Os comprimidos de ferro, por si só, não resolvem a pica se ninguém perguntar o que o doente anda a mastigar ou a engolir em segredo todos os dias.

Porque é que a pica se desenvolve?

Os cientistas continuam a debater os mecanismos exactos. Várias hipóteses coexistem e podem aplicar-se de forma diferente de pessoa para pessoa.

Teorias biológicas e sensoriais

Uma ideia sugere que o organismo procura os minerais que lhe faltam, mesmo que a fonte seja inadequada. Por exemplo, pessoas com reservas muito baixas de ferro têm frequentemente vontade de mastigar gelo, um comportamento conhecido como pagofagia. O gelo não contém ferro, mas o frio extremo pode estimular a circulação sanguínea e tornar a pessoa momentaneamente mais desperta, o que se sente como algo recompensador.

Outra perspectiva concentra-se no lado sensorial. O estalar do giz, o deslizamento suave do vidro ou a aspereza da areia contra os dentes podem provocar sensações fortes na boca. Em algumas pessoas com autismo ou diferenças no processamento sensorial, estas sensações ajudam a regular a sobrecarga ou o tédio de uma forma que a comida comum não consegue reproduzir.

Raízes psicológicas e sociais

A pica surge muitas vezes em vidas marcadas por tensão, trauma ou privação. O acto repetido de mastigar ou engolir pode funcionar como um ritual que atenua a ansiedade. Em crianças negligenciadas, o acesso limitado a brinquedos e estímulos pode levá-las a procurar qualquer objecto ao alcance.

Os factores culturais também contam. Em certas regiões, o consumo de argila ou terra por mulheres grávidas passa de geração em geração, sendo apresentado como remédio para as náuseas ou como fonte de força. Quando este comportamento se cruza com poluentes industriais modernos ou solos contaminados, os riscos para a saúde aumentam de forma acentuada.

Como os médicos diagnosticam e tratam a pica

A pica raramente aparece como um caso arrumado na agenda de uma consulta. As pessoas costumam chegar com anemia, dor abdominal, obstipação ou um cansaço pouco específico. Os desejos por substâncias não alimentares só surgem depois de perguntas delicadas e persistentes.

Passos essenciais no diagnóstico

  • fazer perguntas directas, mas sem juízos de valor, sobre desejos e hábitos alimentares invulgares
  • verificar no sangue os níveis de ferro, zinco e outros nutrientes
  • rastrear parasitas, sobretudo quando se suspeita de ingestão de terra ou fezes
  • pedir exames de imagem se houver possibilidade de obstrução ou perfuração
  • avaliar a existência de autismo, atraso do desenvolvimento, traumatismo cerebral ou perturbações psiquiátricas

Os clínicos também têm de distinguir a pica de comportamentos motivados por costumes culturais, psicose ou autoagressão, que exigem abordagens diferentes.

Tratamento: muito mais do que “deixar de fazer”

Trancar o sabão ou impedir o acesso à terra costuma não ser suficiente. O impulso encontra outro alvo, a menos que os factores subjacentes mudem. O tratamento combina habitualmente:

  • correcção de défices nutricionais com suplementos de ferro ou zinco, quando necessário
  • apoio psicológico, como a terapia cognitivo-comportamental, para gerir impulsos e ansiedade
  • medicação para problemas de saúde mental associados, como depressão ou traços obsessivo-compulsivos
  • alterações do ambiente, sobretudo para crianças e adultos vulneráveis, para reduzir o acesso a objectos perigosos
  • educação da família ou dos cuidadores, para que respondam com planos de segurança em vez de castigo ou ridicularização

Em muitos casos, ajuda também envolver equipas multidisciplinares - médico de família, psiquiatria, nutrição, pediatria e, quando necessário, enfermagem comunitária e assistência social - para identificar o que está a manter o comportamento e reduzir o risco de recaída. Nas crianças, estratégias consistentes em casa e na escola podem ser tão importantes como qualquer intervenção clínica.

As intervenções mais eficazes tratam a pica como um sinal, e não como uma falha moral, procurando descobrir o que o comportamento está a tentar corrigir.

A pica como ponto cego da saúde pública

Apesar do seu impacto, a pica permanece na sombra das políticas de saúde pública. As campanhas contra a anemia falam de alimentação e malária, mas raramente perguntam se os pacientes mastigam terra ou gelo todos os dias. As consultas de preparação para a gravidez abordam suplementos, mas quase nunca mencionam os riscos de engolir substâncias não alimentares durante a gestação.

Os especialistas defendem que perguntas simples de rastreio podem mudar resultados. Perguntar: “Sentiu vontade de comer ou mastigar alguma coisa que não seja comida, como terra, gelo ou papel?” pode abrir espaço para uma conversa honesta. Agentes de saúde comunitária, professores e profissionais de apoio social têm todos peças deste puzzle.

Também são precisos melhores dados. A maioria dos números vem de estudos pequenos, realizados em países isolados ou em amostras hospitalares. Faltam inquéritos em larga escala na Europa e na América do Norte, pelo que a verdadeira prevalência continua incerta. Dada a ligação entre pica, pobreza e marginalização, é provável que muitos casos permaneçam invisíveis.

Uma resposta de saúde pública mais eficaz teria de ir além da consulta individual. Em bairros com maior privação, por exemplo, a vigilância nutricional, o apoio a famílias e a educação sobre risco ambiental podem reduzir a exposição a terra contaminada, tinta antiga ou outros materiais perigosos. Ao mesmo tempo, uma linguagem não estigmatizante facilita que as pessoas peçam ajuda antes de surgirem complicações.

O que fazer se reconhecer estes comportamentos

Alguém que mastiga gelo ocasionalmente durante uma vaga de calor provavelmente não tem pica. Os sinais de alerta aparecem quando os desejos duram semanas, dominam os pensamentos ou envolvem substâncias verdadeiramente perigosas. Engolir objectos cortantes, grandes quantidades de terra, detergentes ou pilhas exige assistência médica urgente.

Para hábitos persistentes, mas menos graves, o primeiro passo costuma ser falar com o médico de família ou com um profissional de saúde mental e pedir análises ao sangue, sobretudo para ferro e zinco. Manter um diário discreto dos gatilhos, emoções e substâncias usadas pode ajudar os clínicos a perceber padrões e a definir estratégias práticas.

Pais, cuidadores e professores sentem muitas vezes uma mistura de medo e frustração quando vêem uma criança a comer objectos não alimentares. O castigo tende a aumentar o segredo e a tensão. Abordagens mais seguras centram-se na supervisão, na substituição por texturas menos perigosas, em exames médicos e num trabalho comportamental gradual apoiado por profissionais.

Muitas pessoas com pica sentem alívio ao descobrir que existe um nome para o que vivem. A perturbação pode parecer estranha de fora, mas segue padrões reconhecíveis e responde a apoio dirigido. Para a medicina, a pica continua a lembrar que a fome não se resume às calorias. Às vezes, o corpo pede minerais em falta, um sistema nervoso mais calmo ou uma forma diferente de lidar com a dor - e usa a linguagem dos desejos, uma linguagem que raramente aparece em qualquer ementa.

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