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Cientistas criaram um novo método revolucionário para produzir compostos de ashwagandha.

Jovem cientista analisa planta dentro de frasco num laboratório com plantas e livros ao fundo.

Os suplementos de ashwagandha - hoje muito procurados - poderão, em breve, tornar-se mais simples de produzir. Investigadores conseguiram engenheirar leveduras para fabricarem os ingredientes activos desta planta usada na fitoterapia tradicional, o que poderá diminuir a necessidade de plantar e cultivar o arbusto inteiro.

Ashwagandha (Withania somnifera) na medicina tradicional indiana e o papel dos withanolídeos

Os extratos em pó de ashwagandha (Withania somnifera) fazem parte da medicina tradicional indiana há milénios. Nos últimos anos, a planta ganhou ainda mais visibilidade como ajuda para o sono e como opção para aliviar stress e ansiedade, impulsionada por alguns segmentos das redes sociais e por figuras públicas.

De um modo geral, os potenciais efeitos medicinais são atribuídos a compostos chamados withanolídeos, presentes sobretudo nas raízes. O problema é que cultivar toda a planta apenas para obter estes compostos exige tempo, espaço e trabalho. Num novo estudo, os cientistas testaram uma alternativa mais eficiente: fazer com que a levedura produza os withanolídeos.

Levedura e genes para produzir withanolídeos: a abordagem do estudo

A equipa começou por sequenciar o genoma da ashwagandha e procurar conjuntos de genes que, pela sua organização, fossem fortes candidatos a participar na síntese de moléculas úteis. A análise levou à identificação de seis genes que codificam enzimas que, em conjunto, funcionam como uma espécie de “linha de montagem” dos withanolídeos.

Depois de inserirem (por manipulação genética) os genes responsáveis pela produção de withanolídeos, os investigadores observaram que a levedura começou a gerar os compostos ao fim de poucos dias. Como a levedura é fácil de cultivar e cresce rapidamente, o grupo defende que este sistema poderá ser aumentado de escala para produzir withanolídeos em volume, tanto para fins medicinais como para investigação.

“Não só descobrimos a via através desta abordagem de engenharia em leveduras, como, no final deste artigo, temos uma estirpe protótipo que pode ser industrializada para produzir withanolídeos”, afirma Jing-Ke Weng, bioengenheiro da Northeastern University e autor correspondente do estudo.

Weng sublinha ainda a distância evolutiva entre os organismos envolvidos:

“As leveduras e as plantas separaram-se há mil milhões de anos, mas quando colocámos estes seis genes no genoma da levedura, a levedura basicamente começa a produzir withanolídeos.”

“Ficámos, na verdade, muito surpreendidos por ter funcionado.”

Resultados actuais e próximos passos para a produção em grande escala

Por enquanto, a levedura produz moléculas intermédias em concentrações de apenas miligramas por litro. Ainda assim, os investigadores descrevem este avanço como “um ponto de partida importante para o aumento de escala da produção de withanolídeos e para o desenvolvimento de fármacos derivados de withanolídeos”.

Se o processo for optimizado, poderá beneficiar uma indústria de ashwagandha em crescimento, que vai desde suplementos até bebidas comercializadas como “relaxantes” e anti-ansiedade.

Benefícios alegados, evidência e potenciais riscos

Entre a longa lista de problemas de saúde que a ashwagandha alegadamente pode ajudar a tratar, a evidência mais consistente aponta para o seu papel na redução do stress e da ansiedade. Mesmo assim, esta utilização pode associar-se a maior risco de náuseas e diarreia e, em doses mais elevadas, a toxicidade hepática.

Outros efeitos frequentemente divulgados - como melhoria do desempenho físico, fertilidade e função cognitiva - não têm sido confirmados com a mesma robustez noutros estudos e ensaios. Produzir os compostos activos em maior escala poderá, porém, acelerar a investigação necessária para testar com rigor a validade destas alegações de saúde.

O que esta tecnologia pode abrir para fármacos e descoberta de novos compostos

Weng antevê um cenário em que a obtenção de withanolídeos deixa de depender do cultivo de plantas:

“No futuro, conseguimos imaginar que não precisamos de cultivar as plantas para obter withanolídeos.”

“Podemos simplesmente engenheirar e optimizar esta estirpe de levedura para produzir o análogo exacto e preciso que queremos. Isso abre verdadeiramente portas a todo o tipo de investigação para descoberta de fármacos no futuro.”

Além do potencial científico, uma produção por fermentação pode trazer vantagens ambientais e de cadeia de abastecimento: menor pressão sobre áreas agrícolas, maior previsibilidade de lotes e possibilidade de manter perfis de compostos mais consistentes ao longo do tempo. Em paralelo, também pode facilitar o desenvolvimento de métodos de controlo de qualidade mais rigorosos, sobretudo quando o objectivo é obter moléculas específicas e reprodutíveis para ensaios farmacológicos.

Por outro lado, mesmo com produção em levedura, continuará a ser essencial avaliar cuidadosamente a segurança, as doses e as interacções, e garantir rastreabilidade e padrões de pureza - particularmente num mercado em que produtos “naturais” muitas vezes chegam ao consumidor com variações significativas de composição.

A investigação foi publicada na revista Nature Plants.

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