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Chefe das Forças Armadas, Fabien Mandon, põe fim às ilusões da defesa europeia.

Militares em reunião olhando para mapa da Europa, com drone e munições sobre a mesa.

Falando perante senadores franceses, o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Fabien Mandon, traçou o retrato de um mundo a deslizar para a confrontação e colocou uma questão desconfortável: a Europa estará disposta - e não apenas capacitada - a defender-se.

Rússia no centro de uma ordem de segurança em desagregação

A análise de Mandon parte de uma hierarquia de ameaças sem ambiguidades: a Rússia continua a ser o perigo principal para a Europa. Segundo o general, a liderança do Kremlin actua como se já não existissem travões efectivos ao uso da força e encara as sociedades ocidentais como frágeis, divididas e hesitantes.

No terreno, na Ucrânia, o quadro que descreve é sombrio. A guerra transformou-se numa disputa brutal de desgaste, travada sobretudo com artilharia, mísseis e sistemas não tripulados, e não através de grandes manobras rápidas. Para compensar a desvantagem demográfica e material, as forças ucranianas recorrem a meios não tripulados em larga escala; ainda assim, Moscovo continua a avançar, metro a metro.

Para Mandon, a erosão diária das defesas ucranianas e o crescimento da frota russa de sistemas não tripulados constituem um laboratório em tempo real do que é hoje uma guerra de alta intensidade na Europa.

Para lá da linha da frente, o general vê um sistema internacional a perder coesão. As Nações Unidas já não exercem o papel de árbitro que, por um breve período após a Guerra Fria, pareceram assumir. Missões de manutenção de paz ficam bloqueadas. Operações de coligação têm dificuldade em mobilizar o Sul Global, onde muitas capitais deixaram de considerar o Ocidente uma referência moral ou política.

Em vez de regras partilhadas, Mandon identifica o regresso cru da “lei do mais forte”. Considera que o comportamento russo é o exemplo mais evidente no contexto europeu, mas aponta também a actuação de Israel em Gaza como outro caso em que o predomínio do poder militar se sobrepõe ao processo diplomático e alimenta instabilidade prolongada.

No Médio Oriente, prevê décadas de turbulência. Mesmo um cessar-fogo, ainda que pressionado por Washington, não apaga traumas nem ódios de um dia para o outro. O general alerta para uma geração que poderá crescer orientada pela vingança, e não pela reconciliação.

Um novo eixo e a leitura dos Estados Unidos a partir de Washington

Mandon enquadra estes desenvolvimentos numa recomposição mais ampla do poder. A China reforça rapidamente as suas forças armadas. O grupo BRICS alargou-se, oferecendo à Rússia e aos seus parceiros maior cobertura diplomática. O Irão fornece sistemas de armas a Moscovo e aprofunda ligações energéticas com Pequim. A Coreia do Norte acelera o desenvolvimento de mísseis.

Do ponto de vista de Washington, observa, este quadro já se assemelha a um alinhamento flexível, mas consistente: China, Rússia, Irão e Coreia do Norte a agir em paralelo, mesmo sem coordenação formal permanente.

Planeadores norte-americanos simulam agora um cenário em que uma crise grave no Indo-Pacífico eclode enquanto uma Europa insuficientemente preparada tenta segurar o seu flanco oriental.

É precisamente essa hipótese de “duas frentes” que estrutura o alerta de Mandon: se os Estados Unidos forem obrigados a concentrar esforços no Pacífico, a Europa pode ter de suportar muito mais peso na sua vizinhança do que, até aqui, esteve disposta a admitir.

O dinheiro não chega se a Europa recusar a lógica do uso da força

Até ao momento, a resposta europeia tem assentado sobretudo em orçamentos e planos administrativos. Numa cimeira da NATO realizada em Haia, os aliados comprometeram-se a caminhar para 5% do PIB em despesa de defesa e segurança até 2035, sob forte pressão de um Donald Trump de regresso ao centro do debate político. Em teoria, trata-se de uma inflexão histórica.

O ponto de Mandon, porém, é que o financiamento, por si só, não resolve o problema essencial. O general detecta um continente a “acordar devagar”, mas ainda pouco disposto a pensar-se como uma potência que, em última instância, pode ter de combater. Após sete décadas de paz relativa, argumenta, muitos europeus desaprenderam a lógica do uso da força como instrumento político de último recurso.

Na sua leitura, decisores russos encaram a violência como extensão normal da política. Já a opinião pública ocidental tende a ver o uso da força como falhanço quase impensável, algo a evitar a qualquer custo. Essa assimetria, sugere, incentiva Moscovo a arriscar mais.

Mandon sublinha que não consegue garantir a segurança francesa se o próprio país, em termos psicológicos, não estiver disposto a defender aquilo que afirma valorizar.

O general recorda ainda que as Forças Armadas francesas recrutam uma geração formada numa cultura de paz. Ao vestir a farda, esses jovens percebem que a força continua a ser um dos instrumentos fundamentais do Estado; a sociedade, no seu conjunto, nem sempre faz o mesmo percurso.

Da “muralha de drones” à “muralha de munições”

Quando passa para capacidades e orçamentos, o tom endurece. Os stocks, afirma de forma directa, são insuficientes. O modelo de planeamento francês dos anos 2010 assumia que, numa crise, as reservas permitiriam sustentar operações de alta intensidade durante vários meses, enquanto a indústria aumentava o ritmo. Para Mandon, essas reservas, em grande medida, já não existem.

Anos de foco no contraterrorismo e de restrições orçamentais levaram governos a cortar o que parecia menos urgente: munições, peças sobresselentes e profundidade logística. A guerra na Ucrânia expôs quão vulneráveis ficaram as forças europeias por causa dessa escolha.

Questionado sobre o que precisa num horizonte de três a quatro anos, Mandon não coloca no topo mais carros de combate nem mais aviões de combate, mas sim muito mais munições.

Esta prioridade choca com programas de grande visibilidade, como o futuro porta-aviões francês, o próximo padrão do caça Rafale ou o ambicioso sistema franco-germano-espanhol de combate aéreo do futuro (SCAF). Sem stocks abundantes de granadas, mísseis e consumíveis essenciais, alerta, esses projectos de bandeira podem transformar-se em símbolos impressionantes, mas vazios em termos operacionais.

A crítica do general Fabien Mandon à ideia de “muralha de drones”

Neste contexto, Mandon mostra-se abertamente céptico em relação a uma proposta mediática da União Europeia: uma “muralha de drones” ao longo da Europa de Leste para travar incursões russas. Com apoio da Comissão Europeia e de vários Estados da linha da frente, a iniciativa pretende ligar sensores, aeronaves não tripuladas e defesa antiaérea ao longo da fronteira oriental.

O general não se revê no conceito. Sublinha que Bruxelas não define requisitos militares e considera a ideia operacionalmente frágil. Na sua avaliação, uma “muralha” deste tipo poderia ser saturada num único dia de actividade intensa.

Para Mandon, o projecto é “sintomático” de uma tentação mais ampla: responder à ansiedade pública com iniciativas espectaculares e fáceis de comunicar, em vez do trabalho menos vistoso, mas decisivo, de reconstruir stocks de munições, reforçar a defesa antiaérea de base terrestre e expandir a capacidade industrial.

A propósito, a lição é também industrial e europeia: sem contratos plurianuais, linhas de produção previsíveis e compras conjuntas que reduzam incerteza, é difícil aumentar a cadência de fabrico e manter reservas. A credibilidade da dissuasão, insiste o general, nasce tanto da capacidade de produzir e reabastecer como do brilho tecnológico.

Europa fragmentada, fragilidade cara

Mandon critica igualmente a fragmentação crónica europeia. Aponta como absurdo existirem 21 normas diferentes para o mesmo tipo de helicóptero, cada uma a exigir cadeias de apoio e formação distintas. Programas conjuntos arrastam-se durante anos e depois arriscam dividir-se em variantes concorrentes - como no caso do SCAF - reduzindo as economias de escala.

Com a NATO a exigir níveis de investimento muito mais elevados, o risco aumenta: se cada país insistir em projectos de prestígio nacional e em equipamento personalizado, os contribuintes podem acabar a financiar um arsenal muito menos eficaz do que os montantes anunciados sugerem.

  • Múltiplas normas: manutenção mais cara e reparações mais lentas.
  • Séries de produção pequenas: custo unitário mais elevado e cadeias de fornecimento frágeis.
  • Sistemas de comando fragmentados: menor interoperabilidade em crise.

A conclusão do general é pragmática: menos modelos, mais normalização e uma concentração rigorosa no que pode ser produzido, armazenado e sustentado em condições de guerra.

Comando, velocidade e o factor humano

As preocupações de Mandon não se ficam pelo material. Ele descreve estruturas de quartéis-generais que funcionariam em guerra, mas que não estão alinhadas com um mundo em que as crises evoluem à velocidade do digital. Evoca um padrão recente: sistemas não tripulados a cruzar a fronteira polaca num dia, um ataque com mísseis no Golfo no seguinte, e pouco depois sobrevoos não identificados sobre instalações em território francês.

A este ritmo, afirma, os comandantes têm de decidir mais depressa, delegar mais e aceitar maior risco controlado. A inteligência artificial pode ajudar a tratar dados, mas será a organização e a cultura a determinar a rapidez de resposta.

O verdadeiro estrangulamento, na sua óptica, está menos nos algoritmos e mais nas cadeias humanas de decisão, ainda demasiado lentas e centralizadas.

Uma dimensão frequentemente subestimada, acrescenta, é a resiliência civil: infra-estruturas críticas, energia, comunicações e transportes podem tornar-se alvos de sabotagem e ciberataques. Quanto mais preparada estiver a retaguarda, menos vulnerável fica a frente - e mais liberdade de manobra terão os decisores militares.

Reter oficiais experientes e falar com a geração seguinte

Em matéria de pessoal, Mandon soa quase tão inquieto como quando fala da Rússia. Observa que as Forças Armadas já não “fazem sonhar” os jovens oficiais como no passado. O problema, insiste, não é tanto atrair recrutas, mas reter oficiais e sargentos a meio da carreira que acumulam experiência e competências críticas.

Ritmo operacional implacável, pressão sobre as famílias, emprego para os cônjuges, custos elevados de habitação e burocracia constante pesam na permanência. Sem um núcleo estável de líderes experientes, qualquer tentativa de aumentar efectivos ou elevar prontidão torna-se frágil.

Um ano de pausa cívica ou militar

Mandon regressa várias vezes à relação entre Forças Armadas e sociedade. Diz favorecer pessoalmente uma forma de “ano de pausa” nacional inspirada em modelos nórdicos, reconhecida no acesso ao ensino superior e assente num contrato claro entre o Estado e os jovens.

Não seria um regresso ao antigo serviço militar obrigatório, mas um período estruturado de serviço em unidades militares, protecção civil ou outras funções públicas. O objectivo seria criar uma reserva maior e melhor treinada e reintroduzir uma cultura básica de defesa numa sociedade que passou décadas a pensar que a guerra em grande escala era um problema do passado.

Objectivos possíveis de um ano de serviço nacional Benefícios para a defesa
Formação cívica e militar Base mais ampla de reservistas em crise
Mistura social entre regiões e classes Maior coesão num cenário de choque
Literacia digital e educação para os media Mais resiliência face à desinformação

O general liga isto directamente à guerra de informação. A Rússia, sustenta, usa de forma recorrente redes sociais e conteúdos impulsionados por algoritmos para amplificar receios e fracturar a opinião pública europeia. Uma população mais informada e resistente faz parte da defesa - não é um complemento opcional.

Três a quatro anos antes de um teste decisivo

Mandon insiste num horizonte apertado: na sua avaliação, França e Europa dispõem de três a quatro anos para demonstrar que conseguem resistir a um choque de grande dimensão. Esse choque pode assumir a forma de um confronto directo na margem oriental da NATO, de uma crise híbrida complexa (misturando ciberataques, sabotagem e incidentes fronteiriços), ou de uma sequência de provocações menores que, acumuladas, corroem a coesão.

O cenário que pretende evitar é uma repetição da “estranha derrota” francesa de 1940: ver o perigo, debatê-lo sem fim e, ainda assim, chegar despreparado.

O general organiza o desafio em três frentes. Geopolítica: a Rússia aceitou a confrontação, a China consolida instrumentos de poder, e o BRICS alargado oferece a muitos Estados um pólo alternativo. Industrial: os europeus precisam de transformar a promessa dos 5% do PIB em capacidade de combate utilizável, com prioridade a stocks, manutenção e normalização. Social: os governos têm de reconstruir coesão interna, voltar a legitimar o uso da força quando necessário e renovar o vínculo entre cidadãos e aqueles que podem ser chamados a combater.

Conceitos e cenários por trás do aviso

Vários conceitos no centro do alerta de Mandon têm significado específico no meio da defesa. “Guerra de alta intensidade” não se refere a ataques pontuais ou destacamentos limitados, mas a combate sustentado entre forças substanciais, com baixas diárias e consumo imenso de munições e peças sobresselentes. A Ucrânia demonstrou que estes conflitos podem devorar, em semanas, aquilo que os planeadores em tempo de paz julgavam suficiente para meses.

A rejeição de uma “muralha de drones” não significa que os sistemas não tripulados sejam irrelevantes. Pelo contrário: ambos os lados na Ucrânia dependem deles para vigilância, correcção de fogos de artilharia e ataque. A preocupação do general é que uma “muralha” estática e muito anunciada seja previsível, fácil de saturar e politicamente tranquilizadora sem ser militarmente robusta.

Para Mandon, um cenário mais plausível passa por defesas em camadas: unidades móveis de defesa antiaérea, guerra electrónica para interferir drones hostis, postos de comando endurecidos e logística dispersa. Esta postura é menos vistosa num comunicado, mas tem mais probabilidades de sobreviver aos primeiros dias de uma crise real.

Para leitores europeus, o testemunho do general funciona como convite a uma simulação mental: se um incidente fronteiriço grave, um ciberataque massivo a infra-estruturas e uma onda de desinformação ocorrerem ao mesmo tempo, onde surgiriam as primeiras falhas - nos depósitos de munições, nas cadeias industriais ou na coesão política? A resposta de Mandon é que as três vulnerabilidades estão hoje em cima da mesa - e que o tempo para as corrigir é menor do que muitos gostariam de acreditar.

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