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“Estamos frente a frente com os russos”, diz chefe da Marinha francesa sobre o poder naval numa década perigosa.

Oficial naval em uniforme azul observa várias fragatas e icebergues através da janela do comando do navio.

A Marinha francesa, pela voz do seu chefe, o almirante Nicolas Vaujour, apresentou uma análise pouco comum e abrangente sobre o poder marítimo contemporâneo: a presença russa cada vez mais próxima, a pressão chinesa num Indo-Pacífico congestionado e as razões pelas quais Paris está disposta a investir dezenas de milhares de milhões num novo porta-aviões nuclear num contexto de tensões que vão da Ucrânia ao Estreito de Taiwan.

“Olhos nos olhos” com a Rússia no mar

Para Vaujour, a Rússia não é uma ameaça distante, limitada às trincheiras do leste da Ucrânia. No mar, é uma realidade diária - e por vezes inquietantemente próxima.

“Em média, um navio de guerra russo passa ao largo das nossas costas no Canal da Mancha uma vez por semana. Estamos olhos nos olhos com os russos no Báltico e no Atlântico Norte”, avisa.

Os operadores franceses de radar e sonar acompanham navios e submarinos russos quase sem interrupção. O almirante sublinha que a frota de submarinos de Moscovo saiu da guerra na Ucrânia “quase intacta” e continuou a modernizar-se, enquanto outras componentes das forças russas acumulam perdas pesadas.

Ao mesmo tempo, o espaço de manobra do Kremlin encolheu. Os ataques ucranianos no Mar Negro empurraram unidades russas para mais a leste. A queda de Bashar al-Assad na Síria fechou o acesso a Tartus. E a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO transformou o Báltico no que oficiais franceses já descrevem como um “lago NATO”, dificultando as saídas a partir de São Petersburgo, um porto comercial crucial para a Rússia.

Esta combinação de resistência e constrangimento torna, na leitura de Vaujour, o comportamento russo no mar mais imprevisível. Ações de guerra híbrida no mar contra cabos submarinos, infraestruturas energéticas ou navegação comercial são uma preocupação constante. Para França e aliados, estes episódios passaram a ser tratados como parte de uma campanha mais ampla - e não como incidentes isolados.

Atlântico Norte e Ártico: o gelo recua, o risco cresce

O almirante é direto quanto ao valor estratégico do Atlântico Norte e da porta de entrada do Ártico. Os submarinos russos que largam de Murmansk têm de atravessar extensas áreas oceânicas que os países da NATO, incluindo a França, querem vigiar de forma apertada.

As alterações climáticas aceleram esta competição. A diminuição do gelo e o aumento da duração das épocas sem gelo podem, com o tempo, facilitar passagens comerciais por águas árticas.

Para Vaujour, o Ártico não é uma rota comercial fantasiosa, mas sim uma frente que se abre lentamente, onde as grandes potências pretendem manter presença “a longo prazo”.

A França reforçou discretamente a sua capacidade de operar neste ambiente. Fragatas modernizadas, novos helicópteros e aeronaves de patrulha marítima Atlantique 2 atualizadas foram orientadas para águas frias e agitadas, missões longas e guerra antissubmarina.

Paralelamente, Paris intensificou a cooperação com parceiros nórdicos como a Suécia, a Dinamarca e a Noruega. Visitas a portos, exercícios conjuntos e operações da NATO em águas setentrionais multiplicaram-se desde 2022, alinhando-se com um esforço europeu mais vasto para manter os submarinos russos sob vigilância apertada.

Um fator adicional ganha relevo neste teatro: a proteção de infraestruturas críticas no fundo do mar. Cabos de comunicações, interligações energéticas e sensores subaquáticos são difíceis de defender e fáceis de perturbar de forma ambígua - precisamente o tipo de cenário que a guerra híbrida no mar explora para criar pressão sem declarar conflito aberto.

A Marinha chinesa e um Indo-Pacífico cada vez mais congestionado

Questionado sobre se a frota chinesa é a que mais preocupa, Vaujour mede as palavras. Reconhece que o crescimento do número de navios chineses é “impressionante”, mas considera ainda mais relevante a forma e os locais onde esses meios são empregados.

Navios chineses patrulham hoje muito além do seu litoral, com presença regular junto de Taiwan e uma postura assertiva no Mar do Sul da China. Ilhas artificiais, reivindicações territoriais e fricções com países vizinhos converteram a região num potencial foco de crise - e num teste permanente à liberdade de navegação.

A França, diz o almirante, não observa de fora. Com territórios que vão da Nova Caledónia à Polinésia Francesa, apresenta-se como uma potência indo-pacífica residente. Desdobramentos de grupos aeronaval - como a mais recente missão Clemenceau - levaram caças, fragatas e navios logísticos franceses mais fundo nas águas do leste e sudeste asiáticos.

Parceiros regionais como as Filipinas e a Indonésia, nota Vaujour, encaram a presença francesa como “credível e fiável”, funcionando como contrapeso num espaço marítimo cada vez mais disputado.

A densidade de tráfego no Mar do Sul da China, por si só, ilustra o que está em jogo: petroleiros, porta-contentores, frotas de pesca, guardas costeiras e marinhas militares disputam corredores essenciais para o comércio mundial. Um erro de cálculo teria efeitos que iriam muito além dos Estados ribeirinhos; poderia interromper cadeias de abastecimento da Europa aos EUA em questão de dias.

O regresso do combate naval de alta intensidade

Durante uma geração, muitos governos europeus trataram grandes batalhas navais como um eco distante da Guerra Fria. A liderança da Marinha francesa já abandonou essa premissa.

Vaujour afirma sem rodeios que o combate naval é um cenário “credível” e a missão central do seu ramo. O treino endureceu de forma clara. Exercícios de grande escala, como Polaris, Wildfire e Orion, procuram replicar conflitos de alta intensidade, incorporando lições da Ucrânia e de ataques recentes com mísseis e drones contra a navegação.

No Mar Vermelho e no Golfo de Adem, fragatas francesas integradas na missão europeia Aspides já enfrentaram ameaças avançadas, incluindo mísseis e drones dirigidos a navios mercantes.

O almirante realça que muito poucas marinhas no planeta estão simultaneamente dispostas e tecnicamente aptas a abrir fogo contra ameaças avançadas no mar.

Para preservar essa vantagem, navios franceses estão a receber novos sistemas de direção de tiro, bloqueadores eletrónicos e conjuntos defensivos afinados para a era dos drones e dos mísseis. Os exercícios simulam cada vez mais ataques em enxame e guerra eletrónica complexa - e não apenas duelos clássicos navio contra navio.

Marinha francesa e o novo porta-aviões nuclear: porquê investir já

Uma ferramenta de poder para a década de 2040

A decisão de construir um novo porta-aviões nuclear para substituir o Charles de Gaulle gerou debate interno. O custo total deverá ascender a dezenas de milhares de milhões, precisamente numa fase em que as finanças públicas enfrentam pressão.

Vaujour enquadra o projeto numa pergunta prática: qual é a forma mais eficaz de projetar poder aéreo a partir do mar em 2040 e nos anos seguintes?

Para ele, a resposta é uma “plataforma soberana, móvel e fortemente protegida”, capaz de lançar caças tripulados e drones, e de evoluir graças à sua arquitetura digital.

O futuro porta-aviões foi concebido para ser modular e profundamente interligado em rede, permitindo atualizações contínuas de sensores, armamento e sistemas de comando. O grupo de escoltas, aeronaves e sistemas não tripulados constituirá aquilo que o almirante descreve como uma “plataforma evolutiva de superioridade aero-marítima”.

Força industrial e sinal político

O programa vai além da capacidade militar. Cerca de 800 empresas francesas, na sua maioria pequenas e médias, deverão participar na construção do navio e do respetivo ecossistema. Bases navais - em particular Toulon - já atravessam obras relevantes de infraestrutura para receber um navio maior.

Em termos estratégicos, um porta-aviões capaz de navegar milhares de quilómetros para lá das águas francesas transmite um recado simultâneo a aliados e adversários: Paris pretende manter-se como potência naval de primeira linha, e não reduzir-se a uma guarda costeira regional com mísseis.

Uma dimensão frequentemente subestimada é a continuidade de competências. Programas desta escala sustentam cadeias industriais, formação técnica e capacidade de manutenção pesada durante décadas - um elemento crítico quando a disponibilidade de navios e a rapidez de reparação se tornam determinantes num conflito prolongado.

Laços com os EUA, orçamentos e os limites das comparações

No papel, o orçamento de defesa previsto por Washington - cerca de 1,5 biliões de dólares em 2027 - ultrapassa de longe qualquer fasquia europeia. Ainda assim, Vaujour afirma ver pouca utilidade em comparações diretas com o “colosso” norte-americano.

A Marinha francesa procura, isso sim, coerência e resiliência “à sua própria escala”: munições em quantidade suficiente, logística robusta e uma capacidade ofensiva e defensiva credível. Isso inclui aumentar aquilo que os planeadores designam por “letalidade” em toda a frota - armas mais eficazes, melhor proteção e decisões mais rápidas.

O seu objetivo, diz, é uma marinha “respeitada pelos parceiros e temida pelos adversários”, não uma força que tenta replicar o modelo norte-americano navio por navio.

No plano operacional, as relações entre a Marine nationale e a Marinha dos EUA mantêm-se sólidas, apesar de episódios políticos pontuais entre Paris e Washington. Há exercícios no Mediterrâneo, no Índico, no Indo-Pacífico e no Atlântico Norte, com interoperabilidade a melhorar de forma constante.

Uma marinha global esticada por oceanos imensos

O espaço marítimo sob responsabilidade francesa é gigantesco. Graças aos territórios ultramarinos, a França dispõe da segunda maior zona económica exclusiva do mundo, tocando praticamente todos os oceanos. Patrulhar essa extensão com um número finito de navios e aeronaves é um desafio permanente.

Vaujour admite que mais cascos e mais aeronaves seriam sempre úteis, mas defende que a resposta não pode ser apenas “mais de tudo”. Vigilância baseada no espaço, melhor fusão de dados e padrões de emprego mais inteligentes ajudam a compensar a limitação de plataformas.

Ainda assim, a pressão é real. Das rotas de droga nas Caraíbas aos riscos de pirataria no Índico, as exigências sobre navios e tripulações não param de crescer. A marinha francesa tem apreendido quantidades recorde de estupefacientes no mar - cerca de 87 toneladas em 2025 - mostrando como crime e segurança se cruzam no domínio oceânico.

  • Atlântico Norte e Ártico: seguimento de submarinos russos e proteção de infraestruturas submarinas
  • Mediterrâneo e Mar Vermelho: ameaças de mísseis e drones, migração, rotas energéticas
  • Oceano Índico: pirataria, terrorismo e estrangulamentos estratégicos como Bab el-Mandeb
  • Indo-Pacífico: ascensão naval chinesa, tensões em Taiwan, tráfego comercial intenso
  • Caraíbas e acessos atlânticos: tráfico de droga e criminalidade organizada

Treino, tecnologia e o fator humano

Por detrás do equipamento, o almirante insiste no elemento humano. O treino realista é, para ele, a forma de unir novas tecnologias - drones, sensores avançados, sistemas de comando com apoio de inteligência artificial - com a marinharia clássica.

Exercícios como o Orion 26 no Atlântico foram concebidos para testar grupos navais completos, integrando unidades aliadas e simulando combate de alta pressão ao longo de semanas. O objetivo é forçar as equipas, revelar fragilidades e ajustar rapidamente procedimentos e meios.

Os novos submarinos nucleares de ataque da classe Barracuda ilustram essa trajetória. Vaujour chama-lhes uma “besta de guerra”, assinalando um salto significativo em discrição, autonomia e poder de fogo face a gerações anteriores. Contudo, o seu valor máximo, ressalva, está na forma como se ligam a uma rede mais ampla de navios de superfície, aeronaves e fontes de informações.

Noções-chave que estão a moldar os mares de amanhã

Vários conceitos estratégicos atravessam as declarações do almirante e estão a redefinir o pensamento naval.

Em primeiro lugar, a guerra híbrida no mar cobre ações abaixo do limiar do conflito aberto: interferir em cabos submarinos, seguir petroleiros de forma intimidatória, bloquear sinais de GPS ou provocar incidentes ambíguos com drones. O objetivo é criar instabilidade e desgaste sem ultrapassar linhas vermelhas inequívocas.

Em segundo lugar, as operações de liberdade de navegação (FONOPs) tendem a tornar-se pontos de fricção cada vez mais frequentes. Quando marinhas ocidentais atravessam águas contestadas - como no Mar do Sul da China ou nas imediações da Crimeia - estão a afirmar uma interpretação do direito internacional que outros, em particular China e Rússia, contestam.

Olhando para a frente, os planeadores antecipam uma maior presença de sistemas não tripulados, à superfície e em profundidade. Um cenário plausível envolve enxames mistos: drones baratos lançados por atores estatais ou não estatais para saturar defesas, obrigando navios de alto valor a gastar mísseis escassos e caros. Marinhas como a francesa já testam combinações de lasers, bloqueadores e iscos como resposta.

Para comerciantes, seguradoras e consumidores comuns, estas discussões podem parecer abstratas. No entanto, um encerramento breve do Mar Vermelho nos últimos meses aumentou custos de transporte e desviou carga para rotas mais longas à volta de África. Um confronto grave no Estreito de Taiwan ou no Atlântico Norte teria efeitos em cascata sobre preços de combustíveis, abastecimento de bens essenciais e cadeias industriais.

É por isso que Vaujour insiste que “a nossa defesa começa muito ao largo”. No seu entendimento, a linha da frente da segurança europeia atravessa hoje águas frias e profundas e estreitos congestionados - onde marinheiros franceses seguem submarinos russos e vigiam patrulhas chinesas, muitas vezes sem atenção pública, até ao dia em que algo corre mal.

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