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Mais um megacontrato de mais de 1,4 mil milhões de euros para a francesa Safran, reforçando a sua liderança no mercado de motores de avião com o LEAP-1A.

Três homens, incluindo piloto e executivos, apertam as mãos junto a um avião branco no aeroporto.

À medida que o Médio Oriente redefine as suas metas no transporte aéreo, um grupo francês ganha terreno e reforça o seu peso tecnológico no mercado global.

A escolha da jovem transportadora saudita Riyadh Air de equipar a futura frota de Airbus A321neo com motores LEAP-1A coloca a Safran no centro de um acordo de grande dimensão e consolida a sua influência entre os principais fornecedores de propulsão para a aviação civil.

Um contrato acima de 1,4 mil milhões de euros que mexe com o setor

O anúncio foi feito no Dubai Air Show, a 18 de novembro de 2025, e prevê o fornecimento de 120 motores LEAP-1A pela CFM International, a empresa conjunta que reúne a Safran Aircraft Engines (França) e a GE Aerospace (Estados Unidos).

Os montantes oficiais não foram revelados, mas a referência a contratos comparáveis ajuda a enquadrar a escala: com um valor unitário frequentemente estimado em cerca de 12 milhões de euros por motor, os 120 motores firmes apontam para aproximadamente 1,4 mil milhões de euros - antes de somar componentes e serviços que, na prática, elevam significativamente o pacote total:

  • motores de reserva;
  • stock de peças sobresselentes;
  • contratos de manutenção plurianuais;
  • apoio técnico e formação;
  • serviços de monitorização e assistência pós-venda.

Este tipo de encomenda tende a evoluir para um pacote integrado de vários milhares de milhões, distribuído por décadas de operação, manutenção e atualizações.

Para a Safran, o efeito é duplo: por um lado, cria receitas recorrentes através de serviços e suporte; por outro, reforça a presença do LEAP-1A no segmento de médio curso, onde a família Airbus A320neo continua a ser determinante.

Riyadh Air e a “Vision 2030”: aviação como motor de transformação

Criada em 2023, a Riyadh Air é uma peça-chave da estratégia “Vision 2030”, o plano saudita que procura diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo. A ambição passa por transformar Riade num grande centro internacional de ligações aéreas, usando a aviação como montra de modernização.

A companhia tem sido explícita quanto ao posicionamento: pretende operar rotas internacionais de nível elevado, disputar procura com grupos regionais como Emirates, Qatar Airways e Etihad, e fazê-lo com uma frota de raiz. Neste desenho, os 60 Airbus A321neo com LEAP-1A assumem o papel de coluna vertebral das operações de médio alcance.

Ao optar pelo LEAP-1A, a Riyadh Air procura conciliar perceção de qualidade com eficiência de custos - uma combinação particularmente relevante num contexto de preços de combustível voláteis e metas ambientais mais exigentes.

Na cerimónia em Dubai estiveram presentes, pela Riyadh Air, Adam Boukadida (diretor financeiro) e Tony Douglas (diretor-executivo), e pela Safran, Stéphane Cueille (presidente da Safran Aircraft Engines) e Olivier Andriès (diretor-executivo do Grupo Safran), sublinhando a dimensão industrial e estratégica do acordo.

Safran e o motor LEAP-1A: o novo padrão na geração A320neo

Engenharia orientada para eficiência e menor pegada ambiental

O LEAP (sigla de Propulsão Aeronáutica de Vanguarda) entrou ao serviço em 2016 como sucessor da família CFM56 e rapidamente se tornou um dos motores mais procurados na aviação comercial. A sua proposta de valor assenta em ganhos técnicos bem identificados:

  • cerca de 15% menos consumo face ao CFM56, reduzindo o custo por lugar e contribuindo para maior alcance;
  • redução equivalente nas emissões de CO₂, apoiando planos de descarbonização das transportadoras;
  • níveis de ruído inferiores, com impacto positivo em aeroportos próximos de zonas urbanas;
  • pás da ventoinha em compósito 3D entrançado, mais leves e robustas do que ligas metálicas tradicionais;
  • utilização de compósitos de matriz cerâmica (CMC) em zonas internas, permitindo temperaturas mais elevadas e melhor eficiência térmica.

Para operações na Península Arábica, há ainda um conjunto específico de durabilidade aplicado à turbina de alta pressão, pensado para enfrentar areia fina, calor extremo e oscilações rápidas de temperatura - condições frequentes em ambientes desérticos.

Escala operacional e dados que explicam a procura

Uma parte significativa da frota mundial A320neo/A321neo opera com o LEAP-1A. Em menos de dez anos, foram entregues mais de 4 000 motores, com cerca de 1 700 aeronaves a voar com esta configuração, enquanto milhares de unidades permanecem na carteira de encomendas da CFM.

A síntese técnica ajuda a perceber porque é que tantas companhias convergem para este motor:

Característica Valor
Consumo de combustível ≈ 15% inferior vs. CFM56
Redução de CO₂ ≈ 15%
Diâmetro da ventoinha 1,98 m
Massa ≈ 2 900 kg
Empuxo máximo ≈ 67 a 156 kN (consoante a versão)
Tecnologias-chave Compósito 3D, CMC, nacelas otimizadas
Manutenção Monitorização contínua em voo
Locais de montagem França (Villaroche, Saint-Quentin) e EUA (Durham)

Um ganho de 15% em eficiência, multiplicado por milhares de horas de voo anuais, pode significar dezenas de milhões de euros poupados ao longo da vida útil de cada aeronave.

O que muda para companhias e passageiros - e onde entra o “efeito de rede”

A seleção de um motor é mais do que uma decisão de desempenho: é uma escolha com impacto ao longo de décadas, influenciando custos de operação, fiabilidade, acesso a peças, capacidade de manutenção e até o valor residual do avião no mercado de segunda mão.

No caso da Riyadh Air, os efeitos mais prováveis do LEAP-1A deverão materializar-se gradualmente em:

  • redução do custo por lugar, com margem para tarifas mais competitivas;
  • operações mais silenciosas, cada vez mais escrutinadas por reguladores;
  • maior flexibilidade e autonomia em rotas de médio curso a partir de Riade, ligando Europa, Ásia e África;
  • reputação associada a eficiência e menor pegada de carbono.

Quando muitas transportadoras convergem no mesmo motor, instala-se um “efeito de rede”: mais oficinas certificadas, mais técnicos formados e menor risco operacional.

Um ponto adicional, frequentemente subestimado, é a logística regional: quanto maior for a base instalada de LEAP-1A numa determinada geografia, maior tende a ser a disponibilidade local de componentes, ferramentas e capacidade de reparação. Para uma companhia em rampa de crescimento, isto pode traduzir-se em menos tempo de aeronave parada e maior previsibilidade na operação.

Safran como eixo industrial francês na aviação (e além)

A encomenda da Riyadh Air reforça a tendência de visibilidade crescente da França em programas aeronáuticos e espaciais, com a Safran a surgir como denominador comum em diferentes frentes - desde a nova economia espacial até motores comerciais e, no horizonte, soluções de propulsão eletrificada.

A presença industrial em Villaroche e Saint-Quentin (França) e em Durham (EUA) sustenta uma rede capaz de servir tanto a Airbus como a Boeing (através do LEAP-1B, aplicado no 737 MAX). Esta escala ajuda a diluir custos, estabilizar cadências e financiar o desenvolvimento de gerações futuras.

Também vale notar o enquadramento concorrencial: no segmento A320neo, o LEAP-1A disputa espaço com alternativas como a família PW1100G-JM. Para as companhias, a decisão pode depender tanto de desempenho e consumo como de disponibilidade de slots de entrega, maturidade do suporte e histórico de fiabilidade em condições específicas de operação.

Riscos, oportunidades e o que pode mudar até 2030

Uma encomenda deste tamanho não está isenta de vulnerabilidades. A cadeia de fornecimento aeroespacial continua a sentir efeitos prolongados de disrupções recentes, e atrasos na entrega de motores já impactaram várias transportadoras. Qualquer estrangulamento na produção da Safran ou da GE Aerospace pode empurrar calendários e adiar a entrada ao serviço dos A321neo da Riyadh Air.

Outro fator decisivo é a pressão regulatória em torno dos combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). O LEAP-1A já está certificado para operar com misturas de SAF, mas a disponibilidade e o custo deste combustível continuam a ser incógnitas. Se as metas ambientais se tornarem mais rígidas, as companhias com motores mais eficientes partem com vantagem.

Importa clarificar também o que se entende por monitorização em tempo real do motor: trata-se de sistemas que recolhem, durante o voo, dados como temperatura, vibração, pressão e consumo. A informação é analisada por equipas de engenharia para antecipar anomalias antes de se transformarem em falhas. Na prática, reduz paragens não planeadas e ajuda a evitar cancelamentos.

Um cenário plausível até 2030 combina três tendências: aumento progressivo do uso de SAF, otimização de rotas com apoio de inteligência artificial e exploração mais eficiente de motores como o LEAP-1A. Em conjunto, estes fatores podem retirar mais alguns pontos percentuais ao consumo e às emissões, sem alterar a arquitetura-base das aeronaves.

Para a Safran, cada contrato desta dimensão reforça caixa e credibilidade para financiar a próxima mudança tecnológica: motores ainda mais económicos, possivelmente híbridos, e preparados para combustíveis alternativos - incluindo, a longo prazo, o hidrogénio. Para a Riyadh Air, a aposta é inequívoca: entrar no mercado já com uma solução amplamente validada, minimizando o risco de ficar atrás numa indústria onde a evolução, apesar de incremental, raramente abranda.

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