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Grandes cidades estão a afundar e o seu desaparecimento parece agora inevitável.

Homem de colete refletor mede nível de água junto a avenida inundada com arranha-céus ao fundo.

Arranha-céus, avenidas bloqueadas pelo trânsito, letreiros de néon.

Por detrás deste cenário de modernidade, há um perigo discreto que, dia após dia, vai fazendo várias megacidades perderem altura.

Em continentes diferentes, algumas das maiores metrópoles - sobretudo as costeiras - estão a ceder, milímetro a milímetro. Este processo já condiciona a vida de milhões de pessoas, interfere com redes de transporte, compromete o abastecimento de água e chega a pôr em causa a estabilidade económica e política de regiões inteiras, numa combinação especialmente perigosa com a subida do nível do mar.

O que está a afundar: muito mais do que uma figura de estilo

Estudos recentes analisaram 48 grandes cidades espalhadas por vários continentes e identificaram um padrão comum: a subsidência, isto é, o afundamento lento e contínuo do terreno. Em conjunto, essas áreas acolhem cerca de 20% da população urbana mundial.

Os resultados são difíceis de ignorar. Em múltiplos casos, o solo está a descer a um ritmo superior ao da subida do mar - o que acelera a probabilidade de inundações persistentes e de perda de território. E, em algumas cidades, a tendência já é encarada como praticamente impossível de reverter dentro de poucas décadas.

Em muitas metrópoles, o chão desce vários centímetros por ano, enquanto o nível do mar sobe apenas alguns milímetros. Somados, estes dois movimentos encurtam drasticamente o tempo disponível para reagir.

Subsidência: o que é, na prática?

A subsidência corresponde ao rebaixamento progressivo da superfície terrestre. Pode acontecer por motivos naturais - por exemplo, devido a movimentos tectónicos ou à compactação de sedimentos -, mas hoje em dia está a intensificar-se sobretudo por ação humana.

Principais causas do afundamento do solo

  • Extração intensiva de água subterrânea: o bombeamento de aquíferos faz com que camadas de solo se compactem.
  • Exploração de petróleo e gás: ao esvaziar reservatórios profundos, promove-se a reacomodação das rochas.
  • Remoção de areia e materiais de construção: fragiliza margens e fundos de baías, estuários e lagoas.
  • Urbanização sem planeamento: edifícios pesados sobre solos frágeis aceleram a compactação.
  • Aterro de zonas alagadas, sapais ou mangais: terrenos “ganhos ao mar” tendem a ser instáveis.

Quando esta dinâmica se soma à elevação do nível do mar, cada centímetro ganha importância. Um bairro ribeirinho que desça 10 mm por ano, numa costa onde o oceano suba 4 mm anuais, enfrenta, na prática, um aumento relativo de 14 mm por ano na altura da água em relação ao terreno.

Jacarta e a subsidência nas megacidades: a capital que decidiu mudar de lugar

Um dos exemplos mais marcantes é Jacarta, capital da Indonésia. Em algumas zonas, a cidade chega a afundar cerca de 26 mm por ano. Nalguns bairros, o rebaixamento acumulado desde meados do século XX já soma vários metros.

Grande parte desta situação está ligada ao uso massivo de água subterrânea. O abastecimento público não acompanhou o crescimento urbano e, sem controlo eficaz, multiplicaram-se poços privados que foram drenando os aquíferos.

Jacarta afunda a tal ponto que o governo optou por transferir a capital para outra ilha, a mais de 1 000 km de distância.

Têm sido construídos diques mais elevados, instaladas bombas adicionais e reforçados muros de proteção, mas muitos especialistas sublinham que estas soluções apenas compram tempo. Em cenários de longo prazo, determinadas áreas podem ficar de forma permanente abaixo da linha de maré.

Outras megacidades com sinais de alerta

Jacarta não é caso único. Medições e análises complementares mostram que várias outras metrópoles estão a afundar a um ritmo preocupante.

Cidade País Afundamento máximo estimado Principais fatores
Jacarta Indonésia ≈ 26 mm/ano Bombeamento de água subterrânea, urbanização desordenada, solos alagadiços
Ahmedabad Índia ≈ 23 mm/ano Urbanização acelerada, uso intensivo de aquíferos
Istambul Turquia ≈ 19 mm/ano Expansão urbana, pressão sobre o subsolo
Houston Estados Unidos ≈ 17 mm/ano Exploração de petróleo, extração de água subterrânea
Lagos Nigéria ≈ 17 mm/ano Extração de areia, expansão portuária
Manila Filipinas ≈ 17 mm/ano Bombeamento de água, crescimento costeiro sem ordenamento

Em todas elas, repete-se uma combinação familiar: forte atividade económica, densidade populacional elevada, pouca margem de segurança em zonas baixas e exposição crescente a marés mais altas e a episódios de precipitação intensa.

Cidade do México: um afundamento longe da costa

A subsidência não se limita a cidades costeiras. A Cidade do México, erguida sobre a área de um antigo lago, está a ceder de forma considerada quase irreversível em partes do seu território.

Ao longo de milhares de anos formou-se ali um solo argiloso que se vai compactando cada vez mais à medida que a água subterrânea é retirada para abastecer a metrópole. O resultado é um ciclo de reparações constantes: edifícios históricos, estações de metro e condutas precisam de intervenções frequentes devido a fendas, deformações e desníveis.

A Cidade do México prova que o perigo não está apenas no litoral: qualquer megacidade assente em solos frágeis e com aquíferos sobre-explorados pode entrar num colapso lento.

Mesmo com restrições ao uso de poços, décadas de exploração deixaram um passivo difícil de inverter. Em certas zonas, o rebaixamento acumulado ultrapassa 10 metros, alterando declives naturais e tornando mais difícil o escoamento das águas pluviais.

Europa: o problema existe, mas geralmente em menor escala

Também há subsidência em cidades europeias, embora muitas vezes a ritmos mais baixos. Construções antigas sobre terrenos moles, túneis de metro, redes subterrâneas densas e a compactação natural dos solos urbanos originam movimentos lentos, tipicamente de poucos milímetros por ano.

Zonas costeiras baixas - como partes dos Países Baixos, do norte da Alemanha e do litoral atlântico francês - exigem vigilância contínua. Em áreas agrícolas drenadas, o rebaixamento do solo pode somar-se à subida do mar, obrigando a diques, comportas e sistemas de bombagem cada vez mais complexos.

Porque é que “inevitável” aparece cada vez mais nestas projeções

Quando alguns trabalhos científicos sugerem que o “desaparecimento” de certas cidades parece inevitável, isso não significa que uma metrópole inteira vá submergir de um dia para o outro. A leitura é mais incómoda - e mais realista.

Em muitos casos, serão partes da cidade que se tornarão tão expostas e caras de manter que deixam de fazer sentido do ponto de vista económico. Politicamente, a resposta tende a ser gradual: retirar população de bairros específicos, deslocar funções estratégicas (como portos ou serviços administrativos) e, por fim, aceitar o abandono de zonas hoje densamente habitadas.

A irreversibilidade resulta da soma entre danos acumulados, custos elevadíssimos de adaptação e aceleração das alterações climáticas, que reduzem qualquer margem de manobra.

Mesmo grandes obras - muros marítimos, sistemas de bombagem de grande capacidade, barreiras móveis - têm limites físicos, financeiros e sociais. E, sobretudo, não travam a subsidência: apenas adiam consequências nas áreas mais críticas.

O que pode ser feito para travar (ou pelo menos abrandar) o problema

Medidas de adaptação e mitigação em discussão

Nas cidades com maior capacidade de investimento, fala-se em pacotes combinados de ação:

  • Reduzir fortemente a extração de água subterrânea, reforçando captações de superfície, reutilização de água e eficiência no consumo.
  • Rever regulamentos de construção para limitar cargas muito elevadas em solos frágeis.
  • Recuperar mangais, sapais e outras zonas húmidas, que funcionam como barreiras naturais face ao mar.
  • Implementar monitorização por satélite para medir o afundamento quase em tempo real.
  • Planear zonas de recuo controlado, aceitando perdas em alguns locais em vez de tentar proteger tudo.

Há ainda uma via complementar, frequentemente debatida em grandes áreas urbanas: a recarga gerida de aquíferos (por infiltração ou injeção), para reduzir a compactação associada ao esvaziamento do subsolo. Não é solução universal e exige controlo rigoroso da qualidade da água e da geologia local, mas pode ajudar a estabilizar tendências em certos contextos.

Estas políticas raramente são consensuais. Tocam interesses do imobiliário, do setor da construção, de indústrias intensivas em água e de atividades extrativas. Ainda assim, o preço da inação tende a ser superior: falhas de infraestruturas, evacuações súbitas, pressão sobre a habitação e disputas crescentes por território seguro.

Conceitos-chave para perceber o risco

Dois termos surgem repetidamente e vale a pena fixá-los.

Subsidência diferencial ocorre quando o terreno afunda de forma desigual dentro da mesma cidade. Um bairro pode descer mais depressa do que o vizinho, criando tensões que abrem fendas em estradas, partem tubagens e deformam estruturas.

Risco composto é a sobreposição de ameaças que atuam em simultâneo. Numa cidade costeira, por exemplo, o perigo não vem apenas do mar mais alto, mas da combinação de:

  • afundamento do solo,
  • precipitação intensa e mais frequente,
  • tempestades mais fortes,
  • urbanização que impermeabiliza o terreno,
  • drenagem envelhecida e subdimensionada.

Quando estes fatores se acumulam, episódios antes classificados como “cheias históricas” podem repetir-se várias vezes na mesma década, empurrando sobretudo as populações com menos recursos para zonas cada vez mais vulneráveis.

Próximas décadas: cenários e escolhas difíceis

Modelos climáticos e projeções de subsidência permitem desenhar cenários - sempre com alguma incerteza. Num trajeto de aquecimento global mais elevado, mantendo-se padrões atuais de ocupação e exploração do subsolo, algumas estimativas sugerem que, até ao final do século, partes relevantes de megacidades costeiras poderão ficar cronicamente inundadas.

Num caminho mais controlado - com redução em grande escala da extração de água subterrânea, proteção de zonas húmidas e limites claros à ocupação de áreas baixas - a perda territorial pode abrandar. Mas dificilmente desaparecerá por completo. A prioridade passa então a ser gerir o inevitável, e não fingir que é evitável em toda a linha.

Há também uma dimensão social que tende a definir o sucesso (ou o fracasso) destas estratégias: quem paga a adaptação, quem recebe apoio para se deslocar e como se evita que o recuo planeado se transforme num empurrão desordenado dos mais pobres para os locais de maior risco.

A questão deixa de ser se certas zonas serão abandonadas e passa a ser quando, de que forma e com que garantias as pessoas poderão recomeçar em terreno mais seguro.

Para muitos habitantes, o tema parece distante e quase teórico. Mas os sinais, por vezes, já estão no quotidiano: fissuras nos passeios, tampas de drenagem que devolvem água em dias de chuva normal e inundações cada vez mais frequentes são indícios concretos de que, em algumas cidades, o chão está literalmente a desaparecer debaixo dos pés.

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