A investigação que lançou as bases da inteligência artificial (IA) moderna está agora a apostar numa visão bem diferente da tecnologia. A francesa AMI Labs acaba de captar mais de 1 mil milhão de dólares para criar uma IA que, em vez de apenas gerar texto, consiga compreender verdadeiramente o mundo.
A dimensão do investimento impressiona - e ainda mais por ter origem numa startup francesa. A AMI Labs (Advanced Machine Intelligence Labs) fechou uma ronda de 1,03 mil milhões de dólares, um valor bastante acima dos 500 milhões de euros que tinham sido inicialmente avançados. Com esta operação, a empresa passa a estar avaliada em 3,5 mil milhões de dólares e reúne um grupo de investidores de grande peso, como Jeff Bezos, Mark Cuban e Eric Schmidt.
AMI Labs, Yann LeCun e a próxima fase da inteligência artificial
O entusiasmo em torno do projecto torna-se mais compreensível quando se olha para quem o lidera. Yann LeCun, hoje com 65 anos, é amplamente reconhecido como um dos principais fundadores da IA moderna. Em 2018, recebeu o Prémio Turing - frequentemente descrito como o “Nobel da informática” - pelo seu trabalho em redes neuronais, tecnologia que está na base dos grandes modelos de IA actuais.
Durante vários anos, LeCun desempenhou funções como director científico de IA na Meta. No ano passado, deixou o grupo para se dedicar por inteiro à AMI Labs, onde assume agora a presidência. A liderança executiva fica a cargo de Alexandre LeBrun, também ex-Meta, que ocupa o cargo de CEO.
Ir além dos chatbots
Yann LeCun tem sido consistente nas suas reservas quanto à IA generativa tal como é mais conhecida hoje. Na sua perspectiva, os grandes modelos de linguagem (LLM) esbarram numa limitação estrutural: não têm uma compreensão real do mundo. Por terem sido treinados sobretudo com texto, tendem a falhar quando precisam de planear, antecipar ou raciocinar perante situações novas. Em áreas sensíveis como a medicina, as chamadas “alucinações” podem traduzir-se em erros com impacto grave.
É precisamente aqui que a AMI Labs quer abrir um caminho alternativo, assente numa arquitectura diferente. A proposta chama-se JEPA (Joint Embedding Predictive Architecture) e foi apresentada por LeCun em 2022. O objectivo é criar “modelos do mundo” que aprendam a partir da realidade - e não apenas a partir de linguagem. Nas palavras de Alexandre LeBrun: “Estamos a desenvolver modelos que procuram compreender o mundo, e isso não se faz fechados num laboratório.”
“Modelos do mundo” com bom senso: saúde e robótica no horizonte
A ambição final é elevada: dotar as máquinas de uma espécie de lógica natural, mais próxima do bom senso humano. Entre as utilizações apontadas, surgem a saúde e, de forma muito clara, a robótica. LeBrun sintetiza o problema actual: se tentarmos colocar robôs em ambientes abertos - em casas ou na rua - a tecnologia de hoje não os torna verdadeiramente úteis. A aposta passa por permitir que se adaptem a situações inéditas com mais autonomia e mais bom senso.
Para suportar um plano desta escala e de longo prazo, a AMI Labs vai abrir escritórios em Paris, Nova Iorque, Montréal e Singapura. Tudo indica que a empresa está a posicionar-se para se tornar um segundo grande campeão francês de IA, a par da Mistral AI.
O que esta aposta implica na prática
Construir modelos do mundo não é apenas uma mudança de arquitectura - exige também uma abordagem diferente ao treino e à validação, com contacto contínuo com ambientes reais e com tarefas onde previsões erradas têm custos concretos. Isso implica equipas multidisciplinares (IA, robótica, simulação, sistemas) e um esforço significativo em infra-estrutura, desde capacidade de computação a dados e testes de segurança.
Ao mesmo tempo, a promessa de uma IA menos dependente de padrões de texto e mais capaz de raciocinar em cenários novos levanta expectativas sobre fiabilidade e verificação. Se a AMI Labs conseguir aproximar-se desse objectivo, poderá abrir espaço a sistemas mais robustos em contextos críticos - precisamente onde as limitações actuais dos LLM são mais difíceis de aceitar.
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