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Grandes cidades estão a afundar: porque é que o seu desaparecimento parece agora inevitável

Mulher jovem segura tablet com gráfico em passeio urbano rachado, refletindo luz do sol poente.

O que durante muito tempo pareceu uma ameaça climática longínqua está agora a chocar com outra crise, mais discreta: em muitas megacidades, o terreno está a afundar centímetro a centímetro todos os anos, encurtando o prazo de segurança para milhões de pessoas.

O que os cientistas estão a alertar

Um estudo recente publicado na revista Nature Sustentabilidade analisou 48 grandes cidades que já sofrem de subsidência - o afundamento gradual do solo. Em conjunto, estas cidades representam cerca de um quinto da população urbana mundial. E os resultados são difíceis de ignorar: em alguns bairros, o solo está a descer mais depressa do que o nível do mar está a subir.

Em muitas megacidades costeiras, o terreno afunda várias vezes mais rápido do que o oceano sobe, criando um risco duplo.

Importa distinguir: a subsidência não é um colapso repentino como um alçapão, nem um choque abrupto como um sismo. É antes um abatimento lento, desigual e cumulativo da superfície terrestre, resultante da combinação entre atividades humanas e as características geológicas locais. Como edifícios, estradas e redes de água e saneamento são planeados para um solo relativamente estável, quando essa premissa deixa de ser válida a cidade começa, literalmente, a deformar-se.

As cidades que afundam mais depressa

O estudo identifica vários pontos quentes urbanos onde a subsidência é especialmente preocupante - seja pela velocidade do afundamento, seja pelo número de habitantes expostos.

  • Jacarta, Indonésia - até 26 mm/ano em algumas zonas
  • Ahmedabad, Índia - até 23 mm/ano
  • Istambul, Turquia - até 19 mm/ano
  • Houston, Texas, EUA - até 17 mm/ano
  • Lagos, Nigéria - até 17 mm/ano
  • Manila, Filipinas - até 17 mm/ano

À primeira vista, poucos milímetros por ano podem parecer pouco dramáticos. Mas quando se estende este ritmo por 30 ou 40 anos, somando aceleração da subida do nível do mar, tempestades mais energéticas e crescimento populacional rápido, a leitura do risco muda de forma brusca.

Jacarta: uma capital a afundar que desistiu de ficar

Jacarta é, provavelmente, o caso mais emblemático. Há áreas da capital indonésia a descer mais de 26 mm por ano, sobretudo devido à bombagem descontrolada de águas subterrâneas e ao peso acumulado de uma urbanização densa sobre solos moles e encharcados.

Perante este cenário, o governo indonésio já tomou uma decisão extrema: transferir a capital nacional cerca de 1 000 km para um novo local na ilha de Bornéu. Esta mudança não “salva” as dezenas de milhões de pessoas que continuarão a viver em Jacarta e na sua área metropolitana, mas revela a avaliação das autoridades sobre as probabilidades no longo prazo.

Mudar uma capital é menos um gesto de ambição e mais uma admissão de que certos riscos costeiros já não conseguem ser controlados no próprio local.

Cidade do México: afundar longe do mar

A subsidência não é um exclusivo das zonas costeiras. A Cidade do México, construída sobre o leito de um antigo lago, afunda-se de forma bem conhecida à medida que o terreno rico em argila se compacta. Décadas de extração de águas subterrâneas para abastecer uma metrópole gigantesca drenaram as camadas subterrâneas como se fossem uma esponja - e, depois de vazias, acabam por colapsar.

Em alguns bairros, as ruas ondulam, as condutas partem e os edifícios inclinam-se em ângulos diferentes. Especialistas indicam que certas áreas dificilmente recuperarão altitude mesmo que a bombagem parasse por completo, porque os solos já se comprimiram para um estado quase permanente.

Causas da subsidência: extração de águas subterrâneas e outros motores

As origens variam de cidade para cidade, mas há fatores que surgem repetidamente.

Principal fator Como leva as cidades a afundar Exemplos típicos
Extração de águas subterrâneas Ao bombear água de aquíferos, o solo acima compacta e assenta. Jacarta, Cidade do México, Manila, partes de Houston
Peso do desenvolvimento urbano Edifícios pesados, estradas e infraestruturas comprimem solos moles ou terrenos conquistados ao mar. Zonas costeiras de Jacarta, Lagos, cidades portuárias asiáticas
Extração de areia e aterros/reconversão de terreno Remover ou redistribuir sedimentos altera a capacidade do solo para suportar cargas. Lagos, portos em rápida expansão na África Ocidental e na Ásia
Extração de petróleo e gás Ao retirar hidrocarbonetos, as camadas subterrâneas podem abater lentamente. Houston e partes da costa do Golfo do México

Os padrões de urbanização têm um peso decisivo. Quando a expansão é rápida e informal, é frequente falharem regras sobre perfuração de poços, controlo de cargas na construção ou monitorização do terreno. Em consequência, as taxas de subsidência podem disparar num horizonte de 10 a 20 anos.

Houston, Lagos e Manila: cidades diferentes, o mesmo sentido

Houston: a pegada petroquímica

Em Houston, o afundamento do terreno está parcialmente ligado à extração de petróleo e gás, mas também ao consumo elevado de águas subterrâneas e à concentração industrial ao longo da costa do Golfo do México. Subúrbios de baixa altitude já dependem de diques e de sistemas de drenagem para conter a intrusão de marés e as inundações costeiras. Se o solo continuar a descer, essa proteção perde eficácia e o custo de manter infraestruturas essenciais tende a aumentar.

Lagos e o custo da areia

Lagos, uma das cidades com crescimento mais veloz do mundo, enfrenta um gatilho distinto: a extração intensiva de areia. A areia é fundamental para o betão e para projetos de aterro e expansão urbana. Retirá-la de ambientes costeiros e lagunares pode fragilizar o terreno, deixando edifícios apoiados em fundações cada vez menos estáveis.

Com milhões de pessoas a instalarem-se em bairros informais sobre zonas sujeitas a cheias, até pequenas descidas do terreno podem transformar marés altas sazonais em emergências domésticas recorrentes.

Manila e o aperto das águas subterrâneas

Em Manila, a combinação de bombagem de águas subterrâneas, solos deltáicos moles e expansão urbana acelerada está a provocar subsidência de até 17 mm por ano em alguns distritos. A capital filipina já se encontra no corredor de tufões intensos. Quando uma maré de tempestade chega com um mar mais alto e encontra uma cidade mais baixa, a profundidade das cheias e os custos dos danos aumentam de forma acentuada.

A subsidência não atua sozinha; ela amplifica todos os outros perigos costeiros que as cidades já tentam gerir.

Europa e França: mais lento, mas longe de ser irrelevante

O estudo assinala que partes da Europa, incluindo França, também apresentam subsidência, embora em média com ritmos inferiores aos observados em megacidades asiáticas ou africanas. Certos portos e regiões deltáicas mostram afundamento mensurável, muitas vezes associado a históricos de aterro e ao uso de águas subterrâneas.

Taxas mais baixas não significam, necessariamente, risco baixo. Muitas cidades europeias têm redes subterrâneas extensas, esgotos envelhecidos e centros históricos densos. Mesmo uma subsidência modesta, quando é irregular, pode torcer túneis, fissurar alvenarias e reduzir a eficácia de defesas contra cheias desenhadas com pressupostos antigos sobre estabilidade do solo e nível do mar.

Além disso, há um efeito frequentemente subestimado: quando o terreno desce, o custo de operação quotidiana sobe. Manter drenagens a funcionar, recalibrar condutas por gravidade, reparar pavimentos deformados e estabilizar fundações passa a ser uma despesa permanente - e a fatura acumula-se antes mesmo de qualquer grande inundação.

É possível travar isto?

Os investigadores são diretos: sem mudanças profundas, muitas destas cidades caminham para inundação parcial ou extensa ao longo das próximas décadas. Não existe uma solução única, mas há medidas que podem reduzir o ritmo do problema ou limitar prejuízos.

  • Restringir ou proibir a bombagem descontrolada de águas subterrâneas em zonas de alto risco
  • Adotar técnicas de construção mais leves e limitar torres ultra-pesadas em solos moles
  • Planear novos bairros fora de focos de subsidência e de costas sujeitas a inundações
  • Reforçar ou redesenhar muralhas marítimas, diques e drenagens tendo em conta o solo a afundar
  • Monitorizar o movimento do terreno com satélites para detetar tendências perigosas cedo

Algumas respostas apenas compram tempo. Um paredão construído hoje pode funcionar durante 20 anos, e depois tornar-se insuficiente se o mar continuar a subir ao mesmo tempo que o terreno continua a descer. Por isso, vários governos começam a ponderar recuo planeado (managed retreat) em certos bairros, mesmo quando reforçam defesas noutros.

O que significa, na prática, a “desaparição inevitável”

Quando os cientistas dizem que a “desaparição” de uma cidade parece inevitável, raramente estão a prever que tudo ficará submerso de uma só vez, num episódio cinematográfico. O padrão tende a ser fragmentado e prolongado.

Bairros baixos podem tornar-se primeiro difíceis de segurar (ou mesmo impossíveis de assegurar). Os custos de infraestruturas podem ultrapassar os orçamentos locais. Quem tem mais recursos muda-se para zonas mais altas, enquanto comunidades com menos meios permanecem em áreas que inundam várias vezes por ano. Ao longo de uma geração, partes da cidade deixam de ser funcionais, mesmo que o horizonte urbano continue visível.

Muitas vezes, a desaparição começa como um recuo silencioso: carreiras de autocarro cortadas, escolas encerradas, manutenção adiada em ruas que alagam um pouco demasiado vezes.

Termos-chave a reter

Subsidência é o afundamento gradual da superfície do solo. Pode ocorrer por processos geológicos naturais ou ser acelerada por ações humanas, como a extração de água, petróleo ou gás.

Recuo planeado (managed retreat) é a deslocação deliberada e organizada de pessoas e infraestruturas para fora de zonas de alto risco, em vez de esperar por desastres repetidos que forcem evacuações caóticas.

Um cenário simples para o futuro

Imagine um bairro costeiro que hoje está 1 metro acima da maré alta. O terreno desce a 15 mm/ano. O nível local do mar sobe 4 mm/ano devido às alterações climáticas. Juntos, isto equivale a uma mudança relativa de 19 mm/ano. Em 30 anos, a altitude “efetiva” cai em mais de meio metro.

Marés de tempestade que antes eram consideradas eventos “de um século” podem passar a acontecer a cada década - ou até com intervalos ainda menores. Drenagens dimensionadas para cheias raras começam a falhar com frequência. Edifícios nunca concebidos para ficar com água salgada estagnada começam a corroer-se desde as fundações. Mesmo sem um desastre súbito, viver ali torna-se progressivamente mais difícil e mais caro.

Para muitas das 48 cidades analisadas, esta matemática deixa pouca margem para adiar decisões. O solo já está em movimento - e não está a mover-se a favor delas.

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