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Carrinhos de compras abandonados: um símbolo de poluição e um custo ambiental real

Mulher com colete refletor limpa lixo num canal, empurrando carrinho de supermercado cheio de resíduos.

Empurrados para sebes, atirados a rios ou deixados ao abandono em ruas da cidade, os carrinhos de compras abandonados tornaram-se um retrato da poluição e do desperdício. Um novo estudo quantifica, de forma concreta, até que ponto esta prática pesa no planeta - não só pelo lixo visível, mas também pelas emissões associadas à recolha, reparação e substituição.

O problema no Reino Unido e a dimensão do abandono

A investigação foi realizada no Reino Unido, onde estes carrinhos são frequentemente designados por “trolleys”, e estima-se que cerca de 520 000 sejam deixados ao abandono todos os anos. Recuperar carrinhos degradados, repará-los ou substituí-los implica um custo ambiental considerável, sobretudo quando se contabiliza toda a logística envolvida.

“Todos os anos, milhares de carrinhos de compras são assinalados como abandonados no Reino Unido”, afirma o engenheiro de materiais Neill Raath, da Universidade de Warwick. “Quando multiplicamos o impacto de carbono da recuperação de cada um, o resultado torna-se simultaneamente significativo e preocupante.”

Emissões da recolha: o peso do transporte em carrinhas a gasóleo

Neill Raath e o colega Darren Hughes (também engenheiro de materiais na Universidade de Warwick) estimaram que o gasóleo necessário para recolher todos estes carrinhos em carrinhas gera, no total, cerca de 343 toneladas métricas de dióxido de carbono (CO₂) - o que é comparável às emissões associadas a manter 80 automóveis a gasolina em circulação durante um ano.

E o impacto pode aumentar rapidamente: se apenas 10% desses cerca de meio milhão de carrinhos precisarem também de recondicionamento com um revestimento de zinco para prevenir a corrosão, as emissões de carbono quase duplicam.

Ciclo de vida em Coventry: quanto “custa” um carrinho, etapa a etapa

Para obter valores detalhados, os investigadores centraram-se numa zona suburbana da cidade de Coventry, calculando o “preço ambiental” de cada carrinho ao longo do seu ciclo de vida completo. Nesse local, são recuperados cerca de 30 carrinhos por semana, e aproximadamente 100 por ano precisam de recondicionamento.

Segundo os cálculos do estudo, as emissões equivalentes de CO₂ por carrinho são:

Etapa Impacto (equivalente de CO₂)
Fabrico de um carrinho novo 65,14 kg CO₂
Recolha e devolução do carrinho 0,69 kg CO₂
Transporte e recondicionamento do carrinho 5,50 kg CO₂

Com base nestes números, os autores concluem que a recolha teria de ser extremamente repetida para “igualar” o impacto do fabrico: “Verificámos que um carrinho teria de ser recolhido 93 vezes por uma carrinha a gasóleo para ter o mesmo impacto ambiental do que produzir um carrinho novo”, explica Raath.

Recuperar e reparar ajuda - mas devolver é ainda melhor

Os dados mostram que recuperar e reparar carrinhos é claramente vantajoso do ponto de vista ambiental. Apesar de a recolha e o recondicionamento terem custos, estas medidas podem reduzir drasticamente o impacto de ter de substituir um carrinho - em cerca de 92% a 99%.

Ainda assim, a opção mais eficaz é evitar que o problema aconteça: garantir que os carrinhos regressam ao local devido logo após a utilização. É um detalhe simples, mas com efeitos cumulativos, e vale a pena lembrar na próxima ida às compras.

Não é um problema exclusivo do Reino Unido

O estudo sublinha que esta realidade não se limita ao Reino Unido. Os autores referem também relatos e análises provenientes da Austrália e da África do Sul, reforçando que o impacto dos carrinhos não devolvidos se repete em diferentes países e contextos urbanos.

Mais do que CO₂: riscos de segurança e degradação do espaço público

As contas do dióxido de carbono são apenas uma parte do problema. Os carrinhos de compras abandonados: - criam riscos de segurança para peões e condutores; - contribuem para a poluição e acumulação de resíduos em linhas de água; - degradam a imagem de praças, passeios e zonas verdes, transformando-as em focos de degradação visual.

O que pode ser feito: prevenção, controlo e inovação

Os investigadores defendem medidas adicionais para reduzir o número de carrinhos abandonados - por exemplo, maior uso de videovigilância e a implementação de barreiras físicas que dificultem a saída dos carrinhos das zonas de estacionamento e perímetros comerciais.

Em paralelo, há espaço para soluções práticas já usadas em vários locais e que podem ser reforçadas: sistemas de depósito (por moeda ou ficha), pontos de devolução mais próximos das habitações em áreas com grande utilização pedonal e campanhas de sensibilização focadas no custo ambiental real do “deixar para trás”.

Também se justifica investigação futura em materiais e processos mais amigos do ambiente, incluindo estratégias para reduzir a necessidade de revestimentos frequentes, aumentar a durabilidade dos componentes e optimizar rotas de recolha, diminuindo quilómetros percorridos e consumo de combustível.

“Embora seja improvável que consigamos eliminar por completo o abandono de carrinhos, esperamos que, da próxima vez que alguém veja um carrinho numa rua estreita ou no meio de um arbusto num parque, pense no impacto ambiental de o deixar ali, sem utilização”, afirma Raath.

A investigação foi publicada na revista Sustentabilidade.

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