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Loucura de Março: Atividade cerebral explica porque jogadores de basquetebol acertam ou falham lançamentos.

Jovem a preparar-se para lançar uma bola de basquetebol numa quadra, com monitorização numa tablet ao lado.

Todos os anos, em março, repete-se o mesmo guião no grande torneio universitário norte-americano de basquetebol. Um jogador vai para a linha de lance livre, prepara-se, lança… e falha. Num instante, lá se vai o seu quadro de previsões perfeito.

E isto acontece apesar de estarmos a falar de atletas de topo. Aquele lançamento já foi repetido milhares de vezes. Então, o que falhou desta vez?

A investigação do meu laboratório sugere que a diferença entre marcar e falhar pode depender da estabilidade - não só na forma como o corpo se move, mas também na forma como o cérebro funciona durante a execução.

Medir a atividade cerebral e a coordenação no lançamento ao cesto

A minha equipa quis perceber como é que as pessoas constroem a competência de lançar a bola ao cesto. Por isso, estudámos a fase inicial de aprendizagem desta habilidade - quando a coordenação entre cérebro e corpo ainda está a ser formada, em vez de funcionar de forma automática.

Décadas de estudos sobre atletas de elite indicam que, nos melhores, os movimentos específicos da modalidade tendem a ser muito consistentes e o cérebro aparenta estar “optimizado” para a tarefa.

Isto é, surge menos atividade cerebral desnecessária e mais processamento focado na execução do gesto certo. Ainda assim, não é claro se estes estados cerebrais são exclusivos do alto rendimento ou se também podem aparecer logo no início do processo de aprendizagem.

Para esclarecer esta questão, registámos o movimento corporal e a atividade cerebral de jogadores de basquetebol iniciados e de nível intermédio enquanto lançavam ao cesto.

Em concreto, recorremos a tecnologia de captura de movimento para analisar a mecânica dos gestos e a eletroencefalografia para avaliar a atividade neural. Depois de uma curta fase de prática e familiarização, cada participante realizou 50 lançamentos. Em seguida, comparamos os lançamentos convertidos com os que não entraram.

O que observámos foi bastante elucidativo.

Estabilidade e variabilidade: o que separa o acerto do erro

Nos lançamentos bem-sucedidos, em todos os participantes, apareceram padrões de movimento mais consistentes. Os pés e a parte inferior do corpo estavam colocados de forma a criar uma base de apoio mais estável, o que melhora o equilíbrio e permite uma transferência de força mais eficaz para a bola.

Também vimos que o movimento das articulações ao longo do corpo era mais coordenado e que a variabilidade diminuía em segmentos cruciais do gesto, sobretudo no punho e no cotovelo.

Ao nível neural, os lançamentos convertidos associaram-se a uma atividade cerebral mais estável. Além disso, observou-se um aumento da atividade ligada à integração de informação sensorial e ao controlo motor.

Já nos lançamentos falhados, o padrão era o oposto: muito mais inconsistência, com pequenas flutuações ao longo de toda a execução. Isto sugere que os jogadores estavam a corrigir o movimento continuamente enquanto o realizavam.

De forma semelhante, a atividade cerebral durante os falhanços parecia refletir um sistema que ainda estava a “tentar perceber” a melhor solução, avaliando, ajustando e corrigindo de forma constante.

Essa variabilidade e ajuste de tentativa em tentativa é exatamente o que se espera nas fases iniciais da aquisição de competências. De acordo com um modelo clássico da aprendizagem, os iniciantes dependem mais de um processamento exigente de informação verbal, visual e espacial enquanto aprendem a coordenar perceção e ação.

Ou seja, pensam de modo consciente e ativo sobre cada parte do movimento. Aprender implica explorar, detetar erros e corrigi-los, enquanto cérebro e corpo procuram uma solução eficaz.

Mesmo dentro deste processo “desarrumado” da aprendizagem, as tentativas bem-sucedidas já mostravam sinais de maior controlo. Marcar um lançamento não dependia apenas de haver mais ou menos atividade cerebral, mas sobretudo de quão consistentemente essa atividade operava.

Os acertos foram caracterizados por um estado cerebral mais estável e menos variável, com padrões que indicam um cérebro melhor ajustado às exigências da tarefa.

Mente acima da matéria: quando aprender atrapalha a execução

Há, no entanto, um ponto importante: os mesmos processos que ajudam a aprender podem prejudicar o desempenho quando é preciso executar.

Atletas de elite não estão a microgerir conscientemente cada ação. Em vez disso, apoiam-se em sistemas afinados por repetição. À medida que a competência se desenvolve, a performance deixa de depender de esforço deliberado e passa a depender mais de consistência. A variabilidade reduz-se à medida que o processamento neural se torna mais eficiente.

Sob pressão, porém, é precisamente essa estabilidade que pode colapsar. Um jogador universitário pode ser muito talentoso, mas continua em desenvolvimento físico e mental.

Em momentos de elevada exigência e grande pressão - sobretudo em contextos como o torneio de março, que não se replicam totalmente no treino - a pressão pode empurrar o atleta “para dentro da própria cabeça”. Pode começar a monitorizar e a controlar os movimentos de forma mais consciente e explícita.

Essa reintrodução de processamento consciente pode interferir com a coordenação automática construída com a prática, aumentando involuntariamente a variabilidade do movimento e do pensamento - e, por consequência, reduzindo o desempenho.

Uma implicação prática é que o treino pode beneficiar de estratégias que vão além da mecânica do gesto. Rotinas pré-lançamento, treino de atenção e exercícios de respiração podem ajudar o atleta a entrar, manter ou recuperar o estado mental que favorece a consistência, mesmo sob pressão.

Também é útil simular, no treino, aspetos do stress competitivo (por exemplo, ruído, tempo limitado, consequências e avaliação). Quanto mais previsíveis forem as sensações de pressão, mais fácil é impedir o regresso ao controlo excessivamente consciente durante a execução.

Retroação biológica e retroação neurobiológica no treino de desempenho

No meu laboratório, estamos a investigar ferramentas de retroação biológica e retroação neurobiológica para tornar visíveis estes estados e métricas “invisíveis”, com o objetivo de apoiar o treino.

Se os atletas conseguirem aprender como o seu cérebro e o seu corpo reagem sob pressão - e praticarem o regresso a um estado mais estável - isso poderá ser um caminho para uma performance mais consistente.

O objetivo não é apenas aprender o movimento certo, mas também aprender quando e como deixar de tentar controlá-lo.

David Van den Heever, Professor Associado de Engenharia Agrícola e Biológica, Universidade do Estado do Mississippi

Este artigo foi republicado a partir de A Conversa ao abrigo de uma licença Commons Criativas. Leia o artigo original.

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