Quatro mil e setecentos milhões de euros: é este o montante da fatura que a depressão Kristin deixa na economia nacional. Falamos de um impacto estimado em 1,5% do PIB - como se a Volkswagen Autoeuropa ficasse completamente imobilizada durante um ano inteiro.
Mais do que um valor numa folha de cálculo, o que está em jogo é a continuidade e a credibilidade de um dos grandes “motores” das exportações portuguesas: a indústria de produção de componentes automóveis e, em paralelo, o setor dos moldes de injeção de plástico, cujo principal polo industrial se concentra na zona centro, precisamente a região mais castigada por esta tempestade.
Neste episódio do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do piscapisca.pt, vamos pôr os números da destruição em perspetiva e perceber de que forma um setor que fornece peças para 98% dos automóveis fabricados na Europa pode recuperar de um abalo desta dimensão.
Indústria portuguesa de componentes automóveis: os carros europeus têm ADN nacional
Para lá do papel relevante na produção de automóveis - com unidades como a Volkswagen Autoeuropa e a fábrica da Stellantis em Mangualde a ilustrar essa capacidade - Portugal destaca-se, sobretudo, na fabricação de componentes que abastecem várias linhas de montagem espalhadas por toda a Europa.
De acordo com a AFIA (Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel), 98% dos automóveis novos à venda no mercado europeu integram, pelo menos, um componente Fabricado em Portugal. Este dado, por si só, ajuda a explicar o peso do setor: cerca de 5,2% do PIB português, com um volume anual próximo de 14,7 mil milhões de euros.
No retrato das exportações nacionais, a indústria de componentes automóveis é responsável por 14,9% das transações. Sustenta ainda 63 mil empregos diretos, distribuídos por aproximadamente 360 empresas - muitas delas concentradas no centro do país, em particular no eixo Aveiro-Leiria.
É precisamente por essa concentração geográfica que a destruição de parques industriais nessas zonas não gerou apenas dificuldades operacionais locais: teve também reflexos fora de portas, ao afetar cadeias de abastecimento internacionais, onde a falta (ou atraso) de um único componente pode parar linhas de montagem completas.
Um efeito menos visível, mas igualmente crítico, é o impacto na confiança dos clientes e na previsibilidade dos prazos. Num setor em que a cadência e a fiabilidade são tão importantes quanto o preço, a reposição rápida de capacidade produtiva, a criação de redundâncias logísticas e a coordenação com fornecedores tornam-se determinantes para proteger contratos e manter Portugal no mapa da indústria europeia.
Portugal no pódio da Europa nos moldes de injeção de plástico
A indústria de componentes automóveis está intimamente ligada ao setor dos moldes de injeção de plástico, no qual Portugal assume um lugar de destaque no contexto internacional: somos o terceiro maior produtor na Europa e o oitavo a nível mundial.
Segundo a CEFAMOL - Associação Nacional da Indústria de Moldes, este setor registou, em 2024, uma faturação de 788 milhões de euros, com 80% da produção orientada para a exportação.
Ainda assim, a depressão Kristin surge como mais um fator de pressão sobre uma indústria que já enfrentava desafios estruturais. Por um lado, o aumento dos custos de produção e logística, num contexto de instabilidade geopolítica. Por outro, as exigências da transição energética, que obrigam a investir no desenvolvimento de novos componentes e soluções.
A médio prazo, ganha relevância a gestão do risco climático e a robustez das infraestruturas industriais: planos de contingência, proteção de ativos críticos, revisão de seguros, redundância energética e rotas alternativas de transporte podem fazer a diferença entre uma recuperação rápida e uma perda prolongada de competitividade - sobretudo num ecossistema exportador com elevada dependência de prazos.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões não faltam, por isso, para ver/ouvir o mais recente episódio do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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