Longe de qualquer linha de costa, uma tempestade de inverno transformou o Pacífico Norte num campo de ondas pesado e desordenado - e lançou pelo oceano algo fora do comum.
Nas semanas seguintes, investigadores acompanharam do espaço como essa perturbação distante gerou ondas tão altas e tão persistentes que atravessaram bacias oceânicas inteiras, obrigando-nos a rever o que julgávamos saber sobre a energia das ondas.
Quando a Tempestade Eddie faz muralhas de água dar a volta ao planeta
No final de 2024 formou-se, no Pacífico Norte, um sistema muito intenso a que foi dado o nome de Tempestade Eddie. Não se tornou um fenómeno célebre por atingir terra. Em vez disso, manteve-se sobretudo em mar aberto, a rodar sobre águas profundas.
Foi precisamente aí - longe de rotas comerciais e de boias meteorológicas - que a Eddie produziu um cenário extraordinário. Registaram-se alturas significativas das ondas acima de 19 metros no núcleo do sistema. E há estimativas de que algumas cristas, de estilo onda monstruosa, tenham alcançado cerca de 35 metros, o equivalente a um edifício de 11 andares.
Estas ondas gigantes percorreram perto de 24 000 quilómetros, descrevendo um percurso do Pacífico Norte, atravessando a Passagem de Drake e entrando no Atlântico tropical.
No caminho, a ondulação roçou o Havai e a Califórnia, ativando zonas lendárias de ondas grandes e contribuindo para condições que ajudaram a viabilizar eventos como o Invitacional Eddie Aikau. Para os surfistas, foi uma época memorável. Para os oceanógrafos, um “ensaio” natural que só aparece uma vez em muitas décadas.
Ao contrário dos ciclones que castigam diretamente o litoral, o efeito principal da Eddie fez-se sentir à distância: gerou ondulação de longo período que conservou energia ao longo de distâncias imensas. E foi essa energia - discreta, mas teimosa - que os satélites começaram a seguir com uma precisão pouco habitual.
Como os satélites passaram a “sentir” a altura do mar: a Topografia das Águas Superficiais e dos Oceanos (SWOT)
Durante muito tempo, as estimativas de ondas em mar alto dependeram de boias espaçadas, diários de bordo, e modelos numéricos. Medições diretas das maiores ondas existiam, mas eram raras e dispersas. Isso mudou com o satélite Topografia das Águas Superficiais e dos Oceanos (SWOT), uma missão conjunta da NASA e da agência espacial francesa CNES.
Criado para cartografar pormenores finos da altura da superfície do mar, o SWOT usa radares capazes de detetar pequenas elevações e depressões no oceano. A partir desses dados, os investigadores conseguem reconstruir a forma e a energia de ondas longas - mesmo quando ocupam centenas de quilómetros.
O SWOT consegue identificar sistemas de ondas com distâncias crista‑a‑crista superiores a 500 metros e segui-los por milhares de quilómetros desde a sua origem.
Em dezembro de 2024, quando a ondulação da Eddie se propagava pelo Pacífico, o SWOT passou no lugar certo à hora certa. As passagens do satélite captaram ondas com períodos até 30 segundos, ou seja, cerca de meio minuto entre cristas consecutivas - uma assinatura típica de ondulação extremamente longa e energética, muito para além do que a maioria das tempestades costeiras produz.
Modelos antigos vs. uma realidade mais dura
As medições detalhadas do SWOT permitiram a uma equipa franco‑europeia liderada pelo oceanógrafo Fabrice Ardhuin confrontar teoria antiga com números robustos. O estudo, publicado nas Atas da Academia Nacional de Ciências dos EUA (PNAS), mostrou que várias fórmulas tradicionais ignoravam um ponto crítico.
Durante anos, modelos empíricos sugeriam que as ondas mais longas transportavam enorme energia, distribuída de forma relativamente uniforme ao longo da ondulação. Os novos dados indicam o contrário: a energia está muito menos “bem repartida”.
Em vez de uma sequência regular de ondas poderosas, a maior parte da energia concentra-se num pequeno grupo de gigantes dominantes, separados por cristas muito menores.
As regras práticas de outros tempos chegaram a sobrevalorizar a energia transportada pelas ondas mais longas em até 20 vezes. Na prática, isto significa que avaliações de risco anteriores podem ter interpretado mal a forma como essa energia chega a uma costa ou a uma estrutura ao largo.
Para explicar a diferença, a equipa de Ardhuin desenvolveu uma nova descrição espectral de mares extremos. Em termos simples, incorporaram interações complexas entre vagas curtas e agitadas e a ondulação longa e rolante. Essas interações não lineares eram frequentemente simplificadas nos modelos mais antigos, em grande parte porque faltavam observações com detalhe suficiente para as testar.
O que ondas de 35 metros significam para a costa, a navegação e as infraestruturas
As implicações ultrapassam a curiosidade científica. A ondulação de longo período gerada por tempestades distantes pode ser enganadora: pode haver céu limpo na praia, mas a energia libertada a milhares de quilómetros continua a deslocar-se.
Quando essa ondulação entra em águas menos profundas, tende a empinar, e por vezes a “empilhar-se”, tornando ondas individuais muito mais violentas do que o vento local faria prever. Isto afeta a erosão, a inundação costeira e os limites de projeto de infraestruturas.
- Praias: aumento da erosão e reconfiguração rápida de barras de areia e dunas.
- Portos e marinas: oscilação invulgar de navios amarrados e maior esforço sobre quebra‑mares.
- Zonas costeiras baixas: episódios de inundação súbita (“ondas traiçoeiras”), mesmo com tempo calmo e anticiclones.
- Plataformas offshore: cargas mais elevadas em pernas e amarrações do que as ondas de projeto padrão preveem.
Em certos cenários, a chegada de ondulação longa também pode reforçar marés existentes ou ressacas de tempestade. A sincronização entre uma ondulação remota e uma preia‑mar local torna-se decisiva: mais algumas dezenas de centímetros de nível de água, somados a ondas anormalmente energéticas, podem levar água a ruas que normalmente não inundariam.
Um efeito adicional - muitas vezes ignorado - é a forma como este conhecimento influencia a gestão diária do risco. Planos de fecho de praias, janelas de manutenção offshore e até operações de reboque em portos expostos tornam-se mais eficazes quando a energia da ondulação é prevista não apenas pela força do vento local, mas também pelo “histórico” de tempestades do outro lado do oceano.
Para países atlânticos como Portugal, esta distinção é particularmente relevante: uma ondulação longa pode chegar com força significativa mesmo sem uma tempestade próxima. Em zonas com fundos que favorecem a amplificação das ondas, como canhões submarinos e taludes íngremes, o impacto pode ser desproporcionado face ao aspeto aparentemente calmo do tempo em terra.
Alterações climáticas e um oceano mais energético
Os investigadores evitam conclusões precipitadas, mas a pergunta impõe-se: tempestades como a Eddie estarão a tornar-se mais intensas num clima em aquecimento? Ainda não existe uma resposta definitiva.
Modelos climáticos indicam que, em algumas bacias, os ventos extremos podem intensificar-se, mesmo que o número total de tempestades mude pouco. Mais energia na atmosfera significa, em princípio, mais energia transferida para a superfície do mar. Porém, o quadro é complicado por fatores locais: a forma do fundo oceânico, cadeias de ilhas e correntes condicionam o modo como a ondulação cresce e se espalha.
O que os satélites acrescentam é um registo global e de longo prazo sobre como a energia das ondas se desloca - e não apenas onde os ventos são mais fortes num dado instante.
Esse registo deverá alimentar revisões de regras de planeamento costeiro. Engenheiros que desenham muros marítimos, pontões, portos ou parques eólicos no mar passam a ter evidência de que ondas raras e de longo período podem ser mais severas do que manuais antigos sugeriam - e as normas podem ter de acompanhar essa realidade.
De ondas monstruosas a “micro‑sismos”: efeitos ocultos da ondulação gigante
Um resultado menos visível de ondulações enormes são os micro‑sismos: vibrações muito pequenas geradas quando as ondas batem no fundo do mar e transferem energia para a crosta terrestre. Sismólogos detetam esses sinais com instrumentos a milhares de quilómetros. Podem dificultar a identificação de pequenos sismos, mas também oferecem uma janela adicional para compreender o estado do oceano.
Os novos espectros de ondas derivados da Tempestade Eddie dão aos geofísicos ferramentas melhores para interpretar esse “rumor” de fundo. Quando satélites e sismógrafos convergem na mesma leitura da energia das ondas, a confiança em ambos os métodos aumenta.
As ondas monstruosas são outro tema em que este avanço pesa. Trata-se de ondas raras e isoladas, muito mais altas do que o mar circundante, capazes de partir janelas de navios ou danificar estruturas offshore. Ao mostrar como a energia se concentra em poucas ondas dominantes, o novo trabalho ajuda a esclarecer em que condições estes episódios extremos podem tornar-se mais prováveis.
Conceitos‑chave por trás destas ondas colossais
| Termo | O que significa | Porque importa |
|---|---|---|
| Altura significativa das ondas | Média da altura do terço mais alto das ondas num determinado estado de mar. | Dá uma medida realista de quão “agitado” o mar se sente. |
| Período de onda | Tempo entre a passagem de duas cristas consecutivas por um ponto fixo. | Períodos maiores tendem a viajar mais longe e a bater com mais força na costa. |
| Ondulação de longo período | Ondas com períodos acima de 15–20 segundos, muitas vezes geradas por tempestades distantes. | Pode chegar em dias calmos e provocar erosão ou inundação inesperadas. |
| Espectro de ondas | Distribuição da energia das ondas por diferentes períodos e direções. | Base para engenharia e previsão: dimensionamento de obras e avaliação de risco. |
Impactos práticos para comunidades costeiras e utilizadores do mar
Para autoridades costeiras, previsões de energia de ondulação a longa distância estão a tornar-se tão úteis quanto previsões de vento e precipitação. Se os satélites detetarem uma tempestade forte no Pacífico Sul a enviar ondas longas em direção, por exemplo, à América Central, torna-se possível preparar interdições balneares, avisar capitanias e verificar defesas marítimas vulneráveis.
Os surfistas de ondas grandes seguem este tipo de ondulação com atenção há muito tempo, mas também pescadores, companhias de cruzeiros e equipas de manutenção offshore estão a ajustar rotinas. Um dia que parece seguro em cartas meteorológicas convencionais pode, ainda assim, trazer condições difíceis para embarcações pequenas ou plataformas flutuantes quando chega uma ondulação distante.
Numa perspetiva mais ampla, a combinação de dados do SWOT com boias ondógrafo e marégrafos costeiros deverá afinar cartas de perigosidade. Localidades protegidas por dunas ou paredões terão uma visão mais clara de que eventos raros podem galgar as defesas - e com que frequência isso poderá acontecer.
Esta informação também entra em modelos de seguros e decisões de investimento. Um porto a ponderar ampliar cais, ou um promotor a planear um novo empreendimento em frente ao mar, vai querer saber como as tempestades do século XXI estão a mudar as estatísticas de ondas extremas. O panorama emergente, graças aos satélites, é duplo: os grandes “humores” do oceano estão hoje melhor cartografados do que nunca - e, ao mesmo tempo, podem ser mais exigentes do que as gerações anteriores supunham.
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