Os cervos conseguem ver luz ultravioleta e, segundo um estudo recente, parecem também deixar um rasto luminoso visível nesses comprimentos de onda.
Esta descoberta muda a forma como se interpreta a comunicação entre cervos e a maneira como estes animais percebem o que os rodeia.
Veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus): marcas no bosque durante a época de acasalamento
Os machos de veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) são conhecidos por “marcarem” o território na floresta durante a época de acasalamento no outono. Esfregam as galhadas em árvores e no chão da mata, libertando o veludo das galhadas - a “pele” macia, rica em sangue, que cobre as galhadas calcificadas enquanto crescem - e deixam marcas de cheiro através de secreções glandulares, urina e fezes.
Estas marcas - conhecidas como deer rubs (em árvores e arbustos) e como escavações de marcação por cheiro (scrapes) no solo - funcionam como sinais para outros animais sobre a presença de um veado: um aviso para rivais e uma chamada para potenciais parceiras.
Mas, ao que tudo indica, o cheiro não é o único “idioma” usado por estes animais.
Fotoluminescência em marcas de cervos: o que encontraram os cientistas
Investigadores da University of Georgia (UGA), nos EUA, descobriram que estas marcas “brilham” em comprimentos de onda ultravioleta - e estudos anteriores já tinham mostrado que os olhos dos cervos conseguem ver UV.
“A fotoluminescência resultante seria visível para os cervos com base nas capacidades visuais dos cervos descritas anteriormente”, escreve a equipa no artigo científico publicado sobre o fenómeno.
É a primeira vez que se documenta evidência de um mamífero a usar efetivamente fotoluminescência no seu ambiente, embora a fotoluminescência induzida por UV em mamíferos seja estudada há mais de um século.
Além disso, o trabalho cumpre grande parte dos critérios necessários para avaliar se a fotoluminescência pode estar, de facto, a desempenhar uma função biológica.
Onde e como o estudo foi feito (UGA, 2024)
Daniel DeRose-Broeckert, assistente de investigação de pós-graduação na UGA, e colegas realizaram o estudo numa floresta de investigação com 337 hectares (cerca de 840 acres), chamada Whitehall, onde os cervos circulam livremente.
A equipa localizou “marcos” deixados pelos animais - 109 rubs e 37 scrapes - em dois levantamentos de aproximadamente um mês durante o outono de 2024. Depois, regressou a cada ponto durante a noite, usando lanternas ultravioletas com picos em 365 nm e 395 nm.
Estes dois comprimentos de onda existem em abundância no céu ao crepúsculo e ao amanhecer, alturas em que os cervos estão mais ativos. E, como investigações anteriores indicam que os cervos conseguem ver reflexos ou emissões nestas gamas, qualquer coisa que brilhe o suficiente sob estas lanternas seria facilmente detetável para a visão de um cervo.
Como método indireto, os cientistas recorreram a um instrumento que mede valores de irradiância - isto é, quanta luz é refletida ou emitida em cada comprimento de onda num determinado ponto.
“As esfregadelas (rubs) e a urina encontrada nas escavações (scrapes) expostas a 395 e 365 nm apresentaram valores médios de irradiância (ou seja, maior brilho) superiores aos do ambiente circundante e exibiram fotoluminescência”, relata a equipa.
De onde vem o brilho: plantas, urina e secreções glandulares
Ainda não é claro que parte deste brilho vem das árvores e arbustos e que parte provém de fluidos residuais dos cervos. A urina, por exemplo, contém porfirinas e aminoácidos que ficam excitados sob comprimentos de onda UV mais longos. Já os fenóis e terpenos libertados pelas glândulas da testa dos machos acredita-se que tenham uma característica semelhante.
Quando os cervos danificam as plantas, expõem lignina lenhosa e terpenos vegetais - compostos que também são conhecidos por apresentarem fotoluminescência.
“Quer a fotoluminescência resulte de secreções glandulares da testa do cervo, quer de propriedades da madeira, o facto é que as esfregadelas contrastam visualmente com o ambiente em redor de uma forma singularmente adequada à visão dos cervos”, observa a equipa.
Um “quadro de avisos” invisível para nós, mas visível para eles
Com ambos os tipos de lanterna UV, a fotoluminescência emitida por estes “sinais” deixados pelos cervos tinha as características certas para ser registada pelos cones no olho do cervo sensíveis à luz visível de ondas curtas e médias. Para os cientistas, isto volta a confirmar que a visão dos cervos está adaptada às condições de pouca luz do amanhecer e do entardecer.
De forma ainda mais impressionante, a descoberta sugere que os cervos podem estar a comunicar através de “placas informativas” luminosas espalhadas pela floresta - que os humanos nem sequer conseguem ver.
Quanto ao que esses sinais “dizem”? Até haver mais investigação, não é possível saber com certeza.
“Embora não tenhamos testado diretamente uma alteração comportamental nos cervos como resultado da presença de fotoluminescência, a irradiância das esfregadelas aumentou ao mesmo tempo que aumentaram os níveis hormonais dos cervos, e sabe-se que as alterações comportamentais mudam com a progressão da época de reprodução”, escreve a equipa.
Este trabalho foi publicado na revista Ecology and Evolution.
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