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Descoberta de gene em salamandras pode permitir regeneração de membros humanos.

Jovem cientista com bata branca analisa modelo de mão com circuito elétrico desenhado no braço.

Perder um membro altera o quotidiano de formas que vão muito além da mobilidade. Actividades que antes pareciam banais passam a exigir esforço, tempo e adaptação.

As próteses ajudam, mas ainda não conseguem reproduzir por completo a sensação, o controlo ou a flexibilidade de um braço ou de uma perna reais. Por isso, há muito que os cientistas colocam uma questão decisiva: será que o corpo humano alguma vez poderá voltar a fazer crescer partes perdidas?

Um estudo recente dá um passo encorajador nessa direcção. Ao analisar de que forma diferentes animais regeneram estruturas do corpo, os investigadores identificaram um sistema genético partilhado que, no futuro, poderá ajudar os humanos a fazer o mesmo.

A regeneração varia entre animais

Na natureza, a capacidade de regeneração não é igual em todas as espécies.

O axolote, um tipo de salamandra, consegue regenerar membros completos. E não se fica por aí: também é capaz de reconstruir partes do coração, do cérebro e da medula espinal.

O peixe-zebra apresenta igualmente uma regeneração muito eficaz. Consegue refazer rapidamente as barbatanas da cauda e reparar órgãos como o coração.

Já os ratos - e os humanos - têm uma capacidade bem mais limitada. Ainda assim, não é inexistente. Em determinadas condições, os humanos conseguem regenerar as pontas dos dedos, sobretudo quando o leito ungueal continua presente.

Esta grande diferença entre espécies levou os cientistas a perguntar-se se existirá um mecanismo comum por detrás da regeneração, activo em todos estes animais.

Genes partilhados na regeneração de membros

Para testar essa hipótese, investigadores de três universidades estudaram em conjunto salamandras, peixe-zebra e ratos.

Josh Currie é professor auxiliar de biologia na Wake Forest, onde o seu laboratório trabalha com o axolote mexicano, um tipo de salamandra.

“Esta investigação significativa reuniu três laboratórios, a trabalhar em três organismos para comparar a regeneração”, afirmou Currie.

“Mostrou-nos que existem programas genéticos universais e unificadores que estão a conduzir a regeneração em tipos de organismos muito diferentes: salamandras, peixe-zebra e ratos.”

Os genes SP6 e SP8 activam-se na pele

A equipa concluiu que os três animais recorrem ao mesmo conjunto de genes durante a regeneração. Esses genes chamam-se SP6 e SP8.

Segundo o estudo, estes genes tornam-se activos na pele que se forma por cima de uma ferida. E essa camada não funciona apenas como “cobertura”: participa activamente ao indicar ao corpo como reconstruir o tecido perdido.

Para medir a importância destes genes, os cientistas removeram-nos.

Nas salamandras, a remoção do gene SP8 impediu uma regeneração correcta do membro: os ossos não se formaram como deveriam. Nos ratos, retirar em simultâneo o SP6 e o SP8 diminuiu a capacidade de regenerar as pontas dos dedos.

O resultado foi claro: estes genes são essenciais. Sem eles, o organismo não consegue concluir o processo de regeneração.

O que pode desencadear a regeneração de membros?

Depois de perceberem o papel do SP6 e do SP8, os investigadores avançaram para outra questão: seria possível substituir os sinais em falta e recuperar parte da capacidade de regeneração?

Para o testar, desenvolveram uma terapia génica. Essa abordagem forneceu uma molécula chamada FGF8, que normalmente actua em conjunto com os genes SP para apoiar o crescimento.

O ensaio foi feito em ratos e os dados foram animadores. Os animais tratados apresentaram melhor regeneração óssea nas pontas dos dedos.

“Podemos usar isto como uma espécie de prova de princípio de que talvez consigamos administrar terapias para substituir este estilo regenerativo de epiderme na regeneração de tecido em humanos”, explicou Currie.

Isto sugere que, mesmo quando alguns genes estão ausentes ou inactivos, poderá ser possível intervir para activar o mecanismo de regeneração.

Ajudar o corpo a reparar-se: necessidade crescente

A procura de tratamentos mais eficazes está a aumentar. Todos os anos, mais de um milhão de pessoas em todo o mundo perdem membros devido a doenças, lesões ou infecções.

Espera-se que este número suba com o envelhecimento das populações e com a maior prevalência de problemas como a diabetes.

Actualmente, a maioria das soluções centra-se na substituição do membro por uma prótese. Apesar de úteis, estas opções não devolvem totalmente a função natural.

Por isso, os cientistas estão a investigar formas de estimular o próprio corpo a reparar-se. Entre as linhas de pesquisa estão as células estaminais, os tecidos bioengenheirados e, agora, terapias baseadas em genes.

“Os cientistas estão a perseguir muitas soluções para substituir membros, incluindo estruturas de suporte bioengenheiradas e terapias com células estaminais”, explicou Currie.

“A abordagem de terapia génica neste estudo é uma nova via que pode complementar e potencialmente reforçar aquilo que, seguramente, será uma solução multidisciplinar para, um dia, regenerar membros humanos.”

O estudo também sublinha a importância de ligar conhecimentos entre diferentes áreas e espécies.

O corpo humano pode já ter as ferramentas necessárias

“Muitas vezes, os cientistas trabalham nos seus silos: ou estamos apenas a trabalhar com axolote, ou apenas com rato, ou apenas com peixe”, disse Currie.

“Uma característica que realmente se destaca nesta investigação é o facto de trabalharmos com todos estes organismos diferentes. Isso é muito poderoso e é algo que espero ver mais nesta área.”

A regeneração de membros em humanos ainda está longe. Mesmo assim, esta investigação aponta para a possibilidade de o corpo já possuir as ferramentas básicas necessárias - e de os cientistas estarem agora a aprender como as activar.

Passo a passo, a ideia de voltar a fazer crescer um membro está a sair do domínio da imaginação e a aproximar-se da realidade.

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