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Os cães já eram comuns há 14.000 anos, muito antes do surgimento da civilização moderna.

Homem pré-histórico ajoelhado junto a um lobo, acampamento com tendas e fogo ao fundo ao entardecer.

Cientistas identificaram sepulturas com 15 800 anos no centro da Turquia que incluem os cães mais antigos já confirmados através de ADN preservado.

A descoberta demonstra que, durante a Idade do Gelo, existiam laços estreitos entre humanos e cães e consolida uma prova genética sólida dessas relações.

Primeiros cães por toda a Eurásia

Pınarbaşı é um abrigo sob rocha na Anatólia central, a região interior da atual Turquia. Ali, foram enterrados cães jovens junto de pessoas sepultadas no mesmo terreno.

Ao comparar essas sepulturas com os ossos, o professor Douglas Baird, da Universidade de Liverpool, associou o modo como os animais foram tratados e a sua alimentação rica em peixe a cuidados humanos continuados.

Em vez de surgirem apenas mais tarde como simples companheiros de aldeia, estes cães pertenciam a uma comunidade móvel que vivia milhares de anos antes de a agricultura chegar à região.

Ainda assim, o facto de terem sido enterrados, por si só, não explica totalmente o que significavam, razão pela qual é importante considerar o padrão mais amplo dos primeiros cães por toda a Eurásia.

Resolver identidades trocadas

Durante anos, ossos de cães muito antigos enganaram arqueólogos, porque cães jovens e lobos eram quase indistinguíveis.

O que resolveu a questão foi o ADN nuclear, o material genético proveniente da maior parte de uma célula, capaz de distinguir cães de lobos.

Até agora, a evidência genética mais antiga e inequívoca vinha de restos com cerca de 10 900 anos, o que deixava muitas dúvidas em aberto.

Sem identificações mais seguras, as afirmações sobre onde os cães surgiram assentavam em ossos que ainda podiam pertencer a lobos.

Linhagem em movimento (cães)

Por volta de 14 000 anos atrás, já existiam cães aparentados em várias partes da Europa.

O ADN da Gruta de Gough, no sudoeste de Inglaterra, coincidiu de forma surpreendente com o do cão da Anatólia, apesar da enorme distância entre ambos.

Em apenas alguns séculos, uma linhagem de cães parece ter-se deslocado pela Eurásia ocidental através de contacto ou troca.

Ao longo do mapa, os cães parecem ter atravessado fronteiras culturais com mais liberdade do que as pessoas que deles cuidavam.

Ecos vindos de Inglaterra

Longe do centro da Turquia, uma gruta no sudoeste de Inglaterra revelou outro cão que morreu há cerca de 14 300 anos.

Marcas na sua mandíbula sugerem que as pessoas alteraram o corpo após a morte de modos que ecoavam o tratamento dado a restos humanos.

Como cuidados semelhantes surgiram em ambos os locais, os estudos indicam que os cães ocupavam um lugar social em comunidades antigas, e não apenas uma função prática.

Mesmo assim, os ossos não permitem determinar se nessa relação a afeição, o ritual ou a utilidade surgiram primeiro.

Uma ponte para o Neolítico

Um segundo estudo de ADN deslocou a narrativa cerca de 32 km para um povoado próximo chamado Boncuklu, onde viveu um cão com 11 400 anos.

Aí, a vida já tinha entrado no Neolítico, período em que a agricultura se expandiu, e os cães eram enterrados diretamente com as pessoas.

Do ponto de vista genético, o cão de Boncuklu continuava muito próximo dos primeiros cães europeus, ligando a vida em aldeia a uma linhagem mais antiga da Idade do Gelo.

Em conjunto, estes indícios fazem de Boncuklu uma ponte entre acampamentos de caçadores-recolectores e as primeiras aldeias agrícolas.

Sobrevivência de linhagens locais

Quando a agricultura avançou mais tarde para a Europa, as populações humanas não substituíram simplesmente os cães que já existiam.

Confirmaram-se dados de cães europeus posteriores que mostram influência genética do Sudoeste da Ásia, mas de forma muito menos completa do que aconteceu nos humanos.

As raças europeias modernas poderão ainda conservar cerca de metade da sua história genética proveniente de cães que viviam na Europa antes da agricultura.

Na prática, os primeiros agricultores integravam frequentemente cães locais nas suas comunidades em vez de recomeçarem do zero.

Diversidade precoce nas linhagens caninas

Um sítio na Suíça reforçou esta ideia: um cão ali encontrado viveu há cerca de 14 200 anos.

O seu ADN estava mais próximo dos cães europeus de períodos posteriores do que dos cães asiáticos, indicando o aparecimento de diferenças regionais.

Assim, a hipótese de um evento de domesticação europeu separado, que depois teria desaparecido, torna-se menos provável.

Em alternativa, os primeiros cães europeus parecem ligados à família mais ampla de cães que mais tarde se espalhou pelo mundo.

Laço entre utilidade e companhia

Viver ao lado de caçadores da Idade do Gelo exigia provavelmente mais do que companhia destes animais e pode ter favorecido comportamentos atentos e fáceis de treinar.

“Estas pessoas caçavam animais como ovelhas selvagens e bovinos selvagens perigosos, por isso parece provável que estes animais fossem usados na caça, mas também possivelmente como cães de guarda, dada a presença de grandes predadores como lobos e leopardos na Anatólia central nessa época”, afirmou Baird.

Em Boncuklu, essas tarefas poderão ter-se alargado novamente à medida que as pessoas se fixaram e começaram a gerir ovelhas de forma mais próxima.

Nada disto pode ser demonstrado osso a osso, mas os indícios práticos encaixam na evidência social.

Afastamento dos parentes selvagens

Outra surpresa está naquilo que o ADN quase não revela: mais tarde, os cães incorporaram poucos genes de lobo ao longo da Eurásia ocidental.

Algumas populações do Próximo Oriente apresentavam alguns genes de lobo, mas a grande linhagem canina já se tinha tornado um grupo distinto.

Ao contrário do gado e dos porcos, os cães muitas vezes evitaram uma hibridação intensa com parentes selvagens locais após a domesticação.

No final da Idade do Gelo, os cães já não eram apenas lobos a viver por perto, mas uma população a construir a sua própria história.

De um abrigo sob rocha na Turquia a grutas e aldeias por toda a Europa, estes estudos seguem os cães como companheiros, viajantes e herdeiros de histórias locais.

As próximas respostas exigirão mais ADN, mais sepulturas e maior cuidado na leitura do que humanos e cães construíram em conjunto.

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